Crítica semanal Vanessa Tangerini

Nós não sabemos?

A Pinacoteca de São Paulo inaugurou em outubro a exposição León Ferrari: Nós não sabíamos. Reunindo obras pertencentes ao acervo da instituição, a curadoria se enfoca no aspecto político e crítico que marcou a produção do artista. No contexto latino-americano atual, a exposição surge, pertinentemente, como uma forma de abordar certos temas que com muita freqüência são evitados, ou que, como sociedade, fingimos não saber.

Nascido em 1920, o argentino León Ferrari se formou em engenharia e foi justamente na cidade de São Paulo onde decidiu dedicar-se inteiramente à arte como profissão. Ferrari desembarcou em São Paulo em 1976 devido à ditadura militar no seu país. Dois anos depois o artista perderia o filho, quem havia permanecido em Buenos Aires, assassinado pelos militares.

Se bem a sua produção artística não tomou um caminho único, talvez as suas produções mais conhecidas sejam as suas esculturas de fios de metal, seus quadros com escrituras deformadas ou abstratas, suas heliografias de arquiteturas impossíveis que surgiram durante a sua experiência em SP (e foram distribuídas de um modo contra-institucional) e as suas colagens políticas. Ah! E é claro, a escultura (ou melhor, objeto) Civilización occidental y cristiana de 1965.

Crítica Ferrari Foto 1
Civilización occidental y cristiana, 1965. León Ferrari.

A série Nosotros no sabíamos (que dá nome a mais recente exposição da Pinacoteca de SP) começou a ser realizada pelo artista em 1976, antes do exílio em São Paulo. Ferrari recortava notícias de jornais que informavam sobre os cadáveres que começaram a aparecer, com o golpe militar, em diversas áreas de Buenos Aires e ao longo das margens do Rio de La Plata. O ato de recortar e “colecionar” de modo cronológico esses testemunhos jornalísticos (que depois seriam reunidos em um livro) era uma forma de invalidar a frase com a qual parte da população justificava o seu suposto desconhecimento da violência com a que os militares governaram o país entre 1976 e 1983. A frase, como se há de imaginar, era “Nós não sabíamos”.

Crítica Ferrari Foto 2
Da série Nosotros no sabíamos, 1976. León Ferrari.

Coincidentemente (ou não), enquanto pensava em Ferrari me deparei com um relato sobre Nelson Rodrigues na internet. Uma imagem dele ao lado de seu filho, Nelsinho. Junto com a foto, um breve texto contava que Nelson Rodrigues duvidava sobre a prática da tortura, morte e perseguição na ditadura militar brasileira. O duvidar, nesse caso, também é um fingir não saber. Um fingir não saber que se deixou de fingir apenas no momento em que descobriu o próprio filho preso e torturado pela ditadura.

O ato de fingir não saber dura até a violência afetar o âmbito pessoal ou familiar de cada indivíduo? Ou é possível continuar fingindo?

Nós, como sociedade, não sabemos? Ou preferimos não saber?

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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