Crítica semanal Vanessa Tangerini

Uma revolução no modo de ver: Aleksandr Rodchenko

“Parece que apenas a máquina fotográfica poderia reproduzir a vida moderna em imagens”, afirmava Aleksandr Rodchenko em 1928.
Artista plástico, designer gráfico, fotógrafo e um dos fundadores do construtivismo russo, Aleksandr Rodchenko (1891-1956) liberou a fotografia das convenções existentes e do ponto de vista do umbigo, criando uma forma nova, “um meio de expressão à medida dos fatos e dos acontecimentos de um mundo industrial”.
“Almoço. Cozinha-Fábrica.” de 1931 é um exemplo de como a fotografia de Rodchenko estava fortemente ligada às mudanças sociais que foram consequência da industrialização. Seguindo o seu mandamento de “fotografar de todos os pontos de vista, exceto do umbigo, até que todos os pontos de vista sejam reconhecidos”, a imagem apresenta uma nova perspectiva de um almoço da classe operária. Esse novo ponto de vista permite que a imagem seja menos um retrato dos indivíduos, e mais um retrato da fábrica. Rodchenko alcança um contraste entre a disposição quadrada da mesa e os receptáculos redondos da comida para retratar a nova dinâmica do mecanismo das fábricas, que se vê replicada no almoço.
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Em “Pinheiros” de 1927, as árvores são retratadas de baixo pra cima revelando a busca do artista em olhar a natureza da perspectiva da cidade moderna, como quem olha uma construção. “Quando eu mostro uma árvore fotografada de baixo para cima, que é semelhante a um objeto industrial, a uma chaminé, estou produzindo uma revolução aos olhos da pequena burguesia e do velho amante da paisagem”, afirmou o fotógrafo. E, de fato, os pinheiros evocam chaminés e, além disso, sua folhagem lembra nuvens de fumaça. O artista propõe colocar o filtro do olhar moderno, atravessado pela urbanidade industrial, para contemplar a natureza. De fato, a partir da modernidade, nossa concepção da natureza não volta a ser a mesma.
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Em “Escadas” de 1929 o artista retrata, de uma perspectiva incomum para a época, uma mulher com um bebê nos braços subindo uma escada. Usando um ponto de vista picado e diagonal, Rodchenko consegue um jogo dramático entre luzes e sombras que acaba achatando os degraus e gerando uma textura na imagem que não seria possível obter do tradicional ponto de vista do umbigo. A mulher é aqui um indivíduo anônimo no ato fugaz de atravessar um espaço de trânsito, representando esse movimento permanente de cidades modernas, caóticas, mutáveis ​​e contingentes do trânsito.
Por outro lado, os fortes contrastes do claro-escuro geram uma textura semelhante à que Rodchenko explora em fotografias como “Engrenagem. Fábrica Automotiva AMO”, de 1929. Essas “engrenagens de escada” que sustentam a figura humana são imensamente mais duráveis ​​que ela, gerando um contraste entre a magnitude e a força das linhas, em comparação com a vulnerabilidade da silhueta indefinida que as atravessa. Há algo da figura sombria, seguida por sua própria sombra, que denota um paradoxo entre a transitoriedade do humano e a eternidade do etéreo, o imaterial.
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Ao obter uma textura que se assemelha à das engrenagens, o artista compõe uma imagem urbana que replica a estética industrial, compondo a cidade como se fosse uma máquina.
Como parte de uma contemporaneidade sobrecarregada de imagens, talvez seja difícil entender, à primeira vista, o ato disruptivo que Rodchenko está produzindo em suas fotografias. É preciso afastar o nosso olhar contemporâneo e digital naturalizado, a fim de apreciar, entender e analisar as inovações técnicas, artísticas e sociais que ele propõe. E aí será possível entender que “os fotógrafos de vanguarda propõem suas teorias de uma nova visão industrial do mundo, cujo objetivo é liberar a fotografia de sua dependência secular da pintura”.
*Bibliografia citada:
LEMAGNY, Jean-Claude y ROUILLÉ, André (Dir.) 1988 (1986). Historia de la fotografía. Barcelona: Martínez Rocca. (p. 127 – 135).
RODCHENKO, Aleksander y KUSCHNER Boris. 1928. La nueva fotografía, una polémica.

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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