Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Sobre “Quando a delicadeza é uma afronta”

No segundo semestre de 2019, a revista de pensamento e cultura Cult, dirigida por Daisy Bregantini, lançou os dois primeiros números da sua Antologia Poética, em que convida poetas-curadores para organizarem uma série com cerca de 30 poemas assinados por poetas brasileiros. O primeiro número, organizado por Alberto Pucheu, poeta e professor de Teoria Literária da UFRJ, foi marcado pela publicação de autorias diversas em relação aos gêneros e à sexualidade associados às assinaturas dos poetas, à geração e à região do país a que pertencem os autores, e ao reconhecimento racial que constróem. 

Assim, poemas de Conceição Evaristo, Carlos de Assumpção e Cuti estiveram, nesse primeiro número da Antologia Poética, ao lado de trabalhos de poetas mais jovens como Natasha Félix e Tertuliana Lustosa, desenhando um panorama em versos que dialoga com a rede de distribuição da revista, em bancas de jornais por todo o país. Com isso, os “Poemas para ler antes das notícias”, como Pucheu intitulou a seleção, representam um passeio da poesia pelas praças e calçadas das cidades, inaugurado pelo autorretrato de André Luiz Pinto no começo do poema de abertura: “Prazer, esse sou eu / filho de doméstica”.

Entre o vigor sem rodeios e as fragilidades expostas que marcam a poesia contemporânea, Tarso de Melo opta, no segundo número da antologia poética da Cult, por essa outra forma de dizer “sobre a violência”, em que “silêncio”, “carinho”, “cuidado” e “amor” operem também como convites para os leitores submergirem nos livros de poesia dos poetas publicados. O conceito que orienta a seleção proposta pelo poeta serve de isca nas bancas de jornal – tática de guerrilha às avessas que não deve ser esquecida na leitura de cada palavra dos textos da antologia, ainda mais porque deseja desarmar o leitor treinado pelas redes sociais em assinar cartas de repúdio contra as artes e a cultura. Isso significa que a seleção dos poetas e dos poemas, sendo um comentário às relações de violência que organizam a sociedade brasileira, deseja torcer a referência à barbárie ao ponto de elaborar alguma língua comum – uma poesia – para a convivência entre cidadãos desarmados pela linguagem.

Como no “Poema não de amor”, de Ana Martins Marques, em que amar com as formas do corpo, delicadas ou ferozes, se aproxima mais de amar do que falar de amor: “não falar de amor me mantém ocupado / os animais do zoológico fazem isso melhor do que eu / eles não falam de amor, eles amam com suas plumas / e suas garras / também te amo com minhas garras e minhas plumas / é o que eu diria se este fosse um poema de amor”. Ou como na homenagem que Marcelo Ariel presta a João Gilberto, cuja música inaugura a compreensão de que é possível sair do tempo “para uma segunda dobra do espaço”: “Não, não havia a compreensão / de que a canção / é nossa única saída” (“João Gilberto ou como sair do tempo”). Ou o enigma que fica “deste verão de portas abertas”, no final do poema de Fabiano Calixto, “Depois da música”: “onde meu mínimo, minucioso, / vocabulário?”.

Os três poemas são exemplos da direção que toma a seleção de Tarso de Melo, “Quando a delicadeza é uma afronta”, nos quais a música e a relação problemática com a linguagem que a música proporciona rompem, depois da leitura, com o registro palavrório das bancas de jornal por onde circulam os poemas da Cult Antologia Poética

Fonte da imagem: 

https://tarsodemelo.wordpress.com/2019/11/28/quando-a-delicadeza-e-uma-afronta

 

 

Luiz Guilherme

 

Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: