Crítica semanal Vanessa Tangerini

Dose dupla (e feminista) na Gentil Carioca

As exposições La Larga Noche de los 500 años de Marcela Cantuária e Superexposição de Aleta Valente, que ficariam abertas a visitação até o dia 20 de dezembro de 2019, se estenderam até o dia 31 de janeiro na galeria A Gentil Carioca. Se você ainda não foi, aproveite a última chance.

Dose 1:

No primeiro edifício-sede da galeria é possível conhecer quatro pinturas de Marcela Cantuária. A primeira, abrindo a exposição no térreo da galeria, é La Larga Noche de los 500 años (2019) um óleo, acrílica e spray sobre tela de grandes dimensões que nomeia a exposição. Devido aos seus 270×500 cm e a sua força cromática, é quase impossível que o transeunte não a note ao caminhar sobre a Gonçalves Ledo. Os fragmentos da obra que, com suas intensas cores, são visíveis de fora da galeria parecem avançar sobre esse espaço para, então, formar parte da composição urbana (essa espécie de cenário nostálgico e caótico que encontramos em algumas ruas e becos do centro do Rio de Janeiro). De algum modo ou de outro, essa pintura precisa ocupar a rua.

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La Larga Noche de los 500 años em exposição na Galeria Gentil. Registro pessoal.

Em frente à obra se encontra um minucioso glossário (disponível também online), realizado por Aldones Nino, que identifica 42 referencias (incluindo personagens) presentes na pintura e revela a enorme pesquisa empreendida pela artista. Nada está ali por acaso. A pintura sobrepõe tempos, espaços, realidades e fantasias, rompendo com a “linearidade cronológica”, como afirma o curador. Uma vida é pouco pra abarcar essa pintura.

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Detalhe de La Larga Noche de los 500 años. Registro pessoal.

“Segundo antigas crenças indígenas, após a longa noite de 500 anos, iniciada com a chegada dos europeus ao continente, o mundo passaria por uma reordenação na qual emergirá uma nova ordem, o alvorecer de um tempo benéfico e de glória para os povos”. – Aldones Nino.

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Sônia em exposição na Galeria Gentil. Registro pessoal

Cantuária reivindica memórias. Dentro dessas memórias, as mulheres ganharão protagonismo. Um exemplo é a obra Sônia, exposta no segundo andar, retrato onírico da guerrilheira brasileira (desaparecida) integrante da guerrilha do Araguaia. A pintura recompõe uma das versões da sua morte, porém não de forma trágica, mas heróica, meio mítica.  No centro, o rosto de Sônia se funde com a paisagem, com o rio. Seu olhar penetrante revela uma força incomensurável. Um olhar ante o qual não há como permanecer indiferente. Difícil de ser esquecido.

São pinturas de resistência. E, talvez, uma das idéias mais potentes presente nelas é a de união dos povos latino-americanos, o (antigo) sonho da América Latina livre e unida. Nesse sentido, acredito que é uma pintura revolucionária.

Dose 2:

Atravessando a rua, no outro edifício da galeria Gentil, se encontra Superexposição. A mostra traz as imagens publicadas por Aleta Valente em sua(s) conta(s) de instagram (ex_miss_febem 1, 2 e 3) para o espaço expositivo. O título explora o duplo sentido do termo “superexposição” já que o mesmo pode referir-se ao fenômeno causado pela entra de luz em excesso na câmera fotográfica, ou ao fato de exibir-se excessivamente nas redes sociais. Gosto de pensar também num terceiro sentido possível, o de “super exposição” de arte, já que é a primeira mostra individual da artista, consagrando-a em um novo mercado.

Para a montagem da exposição, algumas fotografias foram ampliadas e impressas sobre espelhos, permitindo assim que o espectador seja incorporado à obra e que, também, outras obras sejam espelhadas. Essas imagens, muitas vezes irônicas ou debochadas, se tornam ainda mais potentes ao ser transferidas ao espaço expositivo.

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Material Girl em exposição na Galeria Gentil. Registro pessoal.

A exposição não se limita aos auto-retratos de ex_miss_febem. Para a inauguração, a instalação performática Eletrodoméstica foi ativada com Aleta tentando equilibrar o peso do seu corpo com o de objetos utilizados para o trabalho doméstico. Também há um vídeo que me pareceu particularmente enigmático: por momentos pensei que se tratava de uma câmera dentro de uma boca, por outros momentos pensei que fosse um cu. Logo achei que era impossível que fosse qualquer um dos dois. Enfim, até agora não descobri o que era (talvez, a graça seja não descobrir).

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Eletrodoméstica. Imagem: A Gentil Carioca.

De modo irônico e inusitado, Aleta Valente reflexiona constantemente, em suas superexposições, sobre o corpo da mulher e a sua autonomia (ou ausência dela).

A Gentil Carioca: Rua Gonçalves Lédo, 11 e 17, Centro. Rio de Janeiro. De segunda a sexta das 12h às 19h.

 

 

Vanessa Tangerini

 

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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