Crítica semanal Daniela Avellar

NÃO HÁ VOLTA, MAS AINDA É RETORNO

Em Retrato de uma jovem em chamas, novo e deslumbrante filme de Céline Sciamma, a questão do retrato aparece como importante aspecto da narrativa, visto que sua história se passa na França do século 18 e tematiza, em linhas bastante gerais, o encontro entre uma pintora e uma jovem mulher que deveria ser retratada por ela, com intenções por parte de sua mãe de força-la à um casamento indesejado. As duas personagens acabam se apaixonando.

É possível dizer que um retrato, assim com uma imagem, se assenta em uma dinâmica paradoxal de presença/ausência. Isto porque ele traz a presença e a lembrança da pessoa retratada, ao mesmo tempo em que nos coloca o seu desaparecimento. Parece uma simples formulação o que decorre, mas para sentir falta de alguma coisa, este algo precisa necessariamente ter existido. Uma imagem pode, então, fazer reaparecer através do desaparecimento constatado. Não há volta, mas ainda é retorno.

O retrato é algum modo de guardar uma coisa. Há alguns ensejos de registro no filme, seja o perverso, o retrato que é solicitado à pintora, que estaria à serviço de um casamento forçado e indesejado; seja o pedido da personagem retratada, de que seja feita uma pintura retratando a situação de aborto que a terceira personagem tem de passar por; e tem, também, o mais delicado, a ilustração da jovem mulher feita pela pintora para levar consigo.

Imagem é coisa ambígua que se funda, pois, na ausência do objeto. Retratar é tornar presente à medida que tira a presença para fora e retorna, aos olhos que de quem vê, ausência. O retrato pode operar como intensificador do poder das coisas nos olharem de volta enquanto às fitamos. A dimensão própria do olhar é essa relação de ver e ser visto na dinâmica paradoxal de presença/ausência, proximidade/afastamento (um pintor dá um passo atrás para “ver melhor” aqui que está sendo produzido), real/fantasmagórico (a imagem que se repete da jovem usando uma veste branca), contato/perda.

O olhar denota dificuldades quando se anuncia dotado de alguma impossibilidade de contato, de relação. Através do olhar não é possível tocar, tampouco recuperar por completo como no caso do retrato. No filme, estruturas repressivas e disciplinares são impedimentos para que as personagens possam viver uma relação amorosa. Ao lado da pungente questão da sexualidade, que não pode ser vivida de forma plena por questões morais, são vivificadas no filme impossibilidades e dinâmicas também relacionadas aos modos de produção de imagem, interpeladas pela intensidade de um encontro afetivo.

 

Daniela Avellar

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

 

 

 

 

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