Crítica semanal Vanessa Tangerini

A rede como arte.

A exposição Egito Antigo, finalizada em janeiro, bateu o recorde de visitação do CCBB Rio de Janeiro e parece ter roubado todos os holofotes. Mas, para além do Egito (e situando-nos no Brasil), o CCBB atualmente “esconde” uma verdadeira jóia em termos de exposição.

VAIVÉM, em cartaz até 17 de fevereiro, investiga as relações entre as redes de dormir e a construção da identidade brasileira através da seleção de mais de 300 obras que vão desde o século 16 até os dias atuais. Resultado de uma árdua investigação, a exposição coloca em diálogo obras de artistas consagrados e institucionalizados com obras de artistas contemporâneos indígenas, produções de coletivos de artesãs (com redes criadas especialmente para o projeto), móveis de design e arquivos históricos.

Sábado 08-02 Foto1
Rede Social de Opavivará! e Cântico Guarani de Armando Queiroz. Exposição VAIVÉM. Registro pessoal.

A exposição começa no hall do Centro Cultural com a obra Rede Social do coletivo Opavivará! e com a instalação Cântico Guarani do artista Armando Queiroz e continua no segundo andar. O seu tema central são os usos e as representações das redes na arte e na cultura visual brasileira. Partindo daí, a exposição foi estruturada em seis núcleos temáticos trans-históricos que estão longe de buscar uma construção cronológica: “Resistências e permanências”, “A rede como escultura, a escultura como rede”, “Olhar para o outro, olhar para si”, “Disseminações: entre o público e o privado”, “Modernidades: espaços para a preguiça” e “Invenções do Nordeste”.

thumbnail_Sábado 08-02 Foto2
Vista de uma das salas da exposição VAIVÉM. Registro pessoal.

Com uma curadoria crítica, a exposição incorpora desde as representações criadas pelo imaginário europeu colonial e pelo estereotipo imperialista (vide Zé Carioca da Disney), como o olhar dos próprios indígenas sobre si e sobre as redes de dormir. Talvez, seja justamente nessas interseções onde surge a chance de descolonizar o nosso olhar sobre esse objeto e sobre a nossa história.

Sábado 08-02 Foto 3
Gibis do Zé Carioca na exposição VAIVÉM. Registro pessoal.
Sábado 08-02 Foto 4
Wũnũ Phũ (“Rede preguiça”), marchetaria, de Dhiani Pa’saro. Exposição VAIVÉM. Registro pessoal.

Longe de reforçar os estereótipos da tropicalidade, esta exposição investiga suas origens: ao revisitar o passado, conseguimos compreender como um fazer ancestral criado pelos povos ameríndios foi apropriado pelos europeus e, mais de cinco séculos após a invasão das Américas, ocupa um lugar de destaque no panteão que constitui a noção de uma identidade brasileira.” Afirma Raphael Fonseca, curador da exposição.

Vaivém faz referência ao “vai e vem” produzido pela rede quando um corpo é acolhido por ela. Para que o vaivém se produza é necessária a presença do corpo humano, tal como sucede com a obra de arte para que o seu ser tenha sentido. A exposição convida a pensar, e a experimentar, a rede como extensão do corpo, como outra forma de percepção do tempo. A rede como lugar de encontro e conexão. Rede como resistência, como acolhimento. E no vaivém, rede e arte se tornam sinônimos. 

 

 

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: