Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Sobre algumas postagens de Francisco Mallmann

O Instagram se tornou a rede social hegemônica quanto à circulação do poema em contexto digital, a ponto de, em 2018, o livro de ficção mais vendido no país ter sido um volume de textos poéticos produzidos pelo autor do perfil @textoscrueisdemais, que atualmente conta com cerca de 1,2 milhão de seguidores. Os contrapoemas publicados nessa rede por Augusto de Campos, através do perfil @poetamenos, são outro exemplo, entre ainda inúmeros outros, de como o poema conversa com o regime discursivo de uma rede social de imagens tornadas instagramáveis. No entanto, nos últimos meses outra experiência chama a atenção por tensionar, com alguma ironia e ainda mais delicadeza, esse discurso.

Aparentemente, algumas das postagens de @francisco.mallmann não diferem das de outros perfis que veiculam textos curtos e coloridos, em fontes variadas, e são repostadas em ato de identificação nos stories. A não ser, talvez, quando associa dois procedimentos ao teor do que é postado: a apropriação dos textos impressos e o seu registro fotográfico no espaço público. Nesse caso, frases como “deixei ele lá e vim” (título de livro de Elvira Vigna, segundo Mallmann) ou “não era aqui e agora é”, fotografadas sobre trechos de parques verdes, sem identificação da cidade e com fragmento da mão segurando o papel impresso, emulam o próprio gesto de segurar o celular, lendo-o, enquanto se anda pela cidade, ao mesmo tempo em que desviam, ironicamente, o olhar para o papel impresso (que, no entanto, só se vê pela tela de vidro).

“Amanhã te escrevo”, “ah que legal também / adoro poesia” ou “eu tava te procurando”: são frases em português coloquial, que tendem a mobilizar termos fóricos (de lugar, tempo ou pessoa) os quais, descontextualizados, figuram a dispersão das relações afetivas pela cidade por onde são fotografadas. Em lugar das selfies, do registro do rosto e do corpo no espaço público, essas frases, preservando o registro pessoal, estão em posição dialógica e, devido à indeterminação de sentido, coletiva. Acrescido o teor LGBTQI+ e possivelmente de testemunho do autor, trata-se de uma espécie de realismo de ocupação, quando o poema se fotografa na rua, no parque, na praia, com efeito mínimo e qualquer no momento do registro, embora participe do processo de legitimação dos corpos diversos na cidade. 

Evidente que uma das questões que se colocam é acerca do estatuto do poema em experiências análogas, mas gostaria de, não sem provocação, propor a leitura de algumas postagens de Francisco Mallmann nos termos da “artepostagem”, nomeada pelo poeta/editor Thadeu Santxs. De todo modo, seja nessas postagens, seja em diversas experiências do poema impresso em livro, plaquete, zine, lambe ou pixo, a prática da poesia tem assumido consciência de sua função formadora de comunidade, resistindo a uma crônica violência social.

Luiz Guilherme

 

Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

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