Crítica semanal Daniela Avellar

COM ALGUM ESPLENDOR, AINDA QUE MELANCÓLICO

Esta sexta feira estive no Baile da Aurora Sincera, experimento expositivo e celebrativo de curta duração, no Solar dos Abacaxis, com curadoria de Rafael BQueer. Grato prazer ver exposto, na ocasião, o vídeo do desfile de 1989 da Beija-Flor, Ratos e Urubus, Larguem minha fantasia. O enredo de Joãosinho Trinta pretendia, naquela época, trazer uma representação enorme do cristo redentor. Em pleno sábado de carnaval, a arquidiocese do Rio de Janeiro resolveu proibi-la. Desta forma, Joãosinho fez entrar na Sapucaí de sol nascendo, um cristo redentor envolto por um saco preto de lixo e carregando uma placa com a frase “Mesmo proibido, olhai por nós”, eternizando este desfile, realizado no ano de abertura política pós ditadura, como emblemático por seu caráter altamente crítico.

O espaço que devo perseguir nesta coluna crítica não é suficiente para enumerar os motivos pelos quais a cidade do Rio de Janeiro é o epicentro de diversas questões e problemas, em alguma medida específicos, do nosso país. No atual momento, a crise da CEDAE escancara escárnios em relação à população por parte da gestão, quando nem o mínimo parece ser possível. E sabemos que sempre pesa para quem mais precisa. A cidade parece suspensa em um poço tétrico, oscilando entre um imaginário de lixo e luxo, como as ideias contrastantes no citado enredo da Beija-Flor.

O desfile da Mangueira, vencedor das escolas de samba do ano passado, entoou algum acalanto aos ouvidos e aos olhos (marejados) de quem busca, ao menos no carnaval, uma pulsão outra e diferentes exercícios de pertencimento e encontro na cidade. É evidente que quando pensamos no carnaval como atividade libertadora e marcadamente corporal, sobretudo no Rio de Janeiro, a vibração dos blocos de rua também se impõe. Comecei esse breve texto citando a alegria de assistir o emblemático desfile da Beija-Flor e a vitória da Mangueira em 2020, trinta anos depois, justamente porque hoje, e digo isso de modo particular, minhas terminações nervosas se excitam muito mais com os sambas-enredo.

A crise das escolas é, como sabemos, notável. A ausência de patrocínio pode ser uma questão limitadora e não devemos de modo algum elogiar a precariedade, como acontece muitas vezes aos olhos de quem vem de fora. No entanto, me parece necessário refletir sobre o dinheiro e o apoio como agentes que permitem mas ao mesmo tempo limitam. Será o momento das escolas estarem aptas à uma criação mais autoral de seus enredos? Desfiles mais genuínos e por isso, talvez, com mais tendência a exercitarem o lugar da crítica. Uma coisa é fato: o entrelaçamento tão específico de aspectos populares com aspectos eruditos, próprio desses desfiles, pode ser força motora capaz de realizar de modo preciso discussões necessárias com suas criações. Como foi em 1989 e como houveram diversos enredos implicados ao longo da história do carnaval, seguiremos acompanhando e dançando (com algum esplendor, ainda que de fundo melancólico) essas abordagens com a vivacidade própria do carnaval.

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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