Crítica semanal Gabriel Fampa

Dente Canino

Quando não conhecemos um jogo, alguém nos explica como jogar. As regras são postas, o objetivo é definido. Quando o jogo é competitivo, cria-se uma aura em torno do ato de vencer e daquele que sairá triunfante. Às vezes a competição consiste em prender o ar, vendar os olhos ou nadar na piscina; outras, em correr assustado, coletar aviões que caíram no quintal, queimar os dedos e inalar produtos químicos.

As competições aqui acontecem entre duas irmãs e um irmão de uma mesma família. Todos são adultos, tendo idade aproximadamente entre vinte e trinta anos. A família em questão protagoniza Dente Canino; filme grego, de 2009. Sobre queimar os dedos, quanto mais tempo deixado os indicadores sob a água fervente do chuveiro, melhor: aquele que aguentar mais tempo com a pele escaldante, vence. Os jogos entre os três parecem sempre tangenciar a infantilização total, mas também a competição, a violência com o corpo e o embate psicológico.

Mas não é somente sobre brincadeiras, propriamente, que falaremos hoje; pensaremos também no contexto geral em que estão inseridas. Além das duas filhas e do filho, há uma mãe e um pai. Salvo o pai, ninguém nunca sai da casa onde moram – uma casa espaçosa  e isolada geograficamente – e nela se instaura um regime próprio de vivência que tem como alicerce o exílio das filhas e do filho e a hierarquização familiar patriarcal com suas regras e punições, mas também –  e principalmente – com a construção de uma mitologia (ou, mais especificamente, de uma cosmogonia) própria que explica o funcionamento do mundo a partir de suas próprias estipulações. Essa mitologia não é tanto uma que elucida as origens do mundo; concretiza, na verdade, o oposto disso: contextualiza somente os fatos recorrentes desse mundo, os implicando sempre na vivência cotidiana da família e os colocando como barreiras para a percepção dos mecanismos factuais de funcionamento da realidade material e sensitiva.

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Quando um gato inesperadamente ultrapassa os muros da casa e entra pelo jardim, os filhos ficam assustados, nunca haviam visto um animal como aquele antes. O pai alerta: o gato é uma das bestas mais perigosas que há no mundo lá fora; mata seres humanos e os come lentamente; e este animal-besta é apenas uma das ameaças que compõe o mundo exterior. O filho, sempre procurando provar sua coragem e aptidão para o pai, enfrenta o gato com uma tesoura de cortar grama, arrancando-lhe o intestino para fora da barriga e matando-lhe a golpes secos.

A ressignificação tem um papel importante na construção desse mundo íntimo da casa apresentada no filme. Como se transforma o gato em uma besta? Através da linguagem. A fala tem papel imprescindível na formação do imaginário que rege esse universo doméstico de Dente Canino. Nomes de objetos, por exemplo, são constantemente ressignificados; palavras sofrem alteração contextual; perigos são desenhados, punições são estipuladas. A palavra telefone é atribuída ao objeto saleiro. A genitália é chamada de teclado. Um zumbi é uma flor amarela. Esse jogo de ressignificações é utilizado pelos pais para ocultar o significado original das palavras. Um telefone é, sabemos, um objeto de fazer contato com o mundo lá fora; um zumbi é a paixão da cultura pop; a genitália serve, dentre outras coisas, para estimulação dos prazeres e para procriação. Há ainda uma espécie de cinismo universal no ato de explicar minuciosamente tudo que se diz e faz. As palavras são enrijecidas, não há dobras nelas. Fala-se com clareza absoluta e ordenação precisa dentro do contexto próprio dessa mitologia que se cria.

A linguagem é, parece-nos, utilizada para os fins de sua própria perversão. Há um problema na interioridade desse sistema de ressignificações localizado nos índices linguísticos, que são continuamente corrigidos pela troca e pelo apagamento daquilo para o que apontam. Quando o pai faz compras no mercado, retira todas as embalagens dos produtos antes de retornar. Apaga-se os índices de uma sociedade funcional exterior. O pai filma constantemente com uma câmera de vídeo analógica; e na TV, há somente para assistir estes registros. Quando escutam música internacional em vinil, o compositor é apresentado como o tio dos irmãos.

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E até onde se vai para manter as regras desse mundo funcionando? Ou melhor, quais são os limites da manutenção desse sistema e o que ocorre nas zonas onde as prevenções não chegam. O que ocorre na periferia desse mundo? O desejo individual dos filhos se apresenta como forte contraponto a esse controle autoritário, que é regulamentado pela manutenção dessa mitologia cujo objetivo primeiro é estabelecer os limites de atuação em um regime de superproteção, egocentrismo e patriarcalismo decadente. A sexualidade é descoberta entre as irmãs em um jogo erótico de lamber partes do corpo. A curiosidade e impetuosidade do irmão faz com que sua vontade de descobrir o mundo retorne ciclicamente em ações que geram tensões com as fronteiras estabelecidas entre casa e exterior. Uma das filhas penetra o quarto da mãe e descobre, com medo de ser pega no ato, o telefone escondido na escrivaninha. As brechas desse sistema vêm continuamente à tona no filme e demonstram não somente os pontos cegos do controle, mas a propensão individual de perversão das mitologias sem necessariamente negá-las, caminhando sempre na ambiguidade de suas estipulações.

Os pais estabelecem um momento no qual o indivíduo está pronto para sair dos territórios seguros de sua casa para explorar o mundo hostil: é quando o dente canino amolece e cai em um humano adulto que este está pronto à exterioridade. O papel do dente em Dente Canino pode ser visto como a fabricação de um rito de passagem, dentro dessa mitologia paterna, que nunca chega. Os ritos de passagem, a grosso modo, marcam a transição de uma etapa para outra na vivência e conferem um senso de crescimento e amadurecimento, atribuindo novas responsabilidades nas dinâmicas de convívio àqueles que passam por eles. O estabelecimento de um rito inalcançável é um mecanismo de controle que aspira à infantilização eterna dos filhos. Toda mitologia do dente é construída processualmente diante das necessidades de ocultação das tensões que levam ao conhecimento dos fatos considerados perigosos do mundo, que incluem, dentre eles, a sexualidade das filhas. O rito de passagem, desse modo, incorpora-se na mitologia como próprio mito. É pura explicação abstrata e inalcançável do mundo.

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Há um senso de absurdo no filme que tangencia a surrealidade simultaneamente em que nos chega com ar de verossimilhança total. O isolamento físico da casa, percebemos, não é suficiente para que se impeça o diálogo entre interioridade e exterioridade. Esse diálogo não é harmonioso, é carregado de tensão, medo e libido. A autoridade da linguagem e a punição física entram constantemente em conflito com os limites da aceitação desses mitos e com a capacidade de imaginação. A filha eventualmente arranca brutalmente o próprio dente para que possa sair de casa. Esconde-se no porta-malas do carro do pai e ali aguarda, sem que ninguém saiba, até que ele sai para trabalhar. A princípio, Dente Canino termina de forma a nos deixar o papel de imaginar que fim levará a filha no porta-malas, mas sugere, também, o pensamento em direção à constatação do absurdo e das contradições insuperáveis de todo sistema. Nos oferece também uma reflexão em torno das potencialidades da linguagem como mecanismo de manipulação (sabemos que nós, também, somos constantemente expostos a sistemas sociais, mercantis e políticos de infantilização) e de fabricação de mundos – estruturados ou não – que estão sempre sujeitos aos conflitos na interioridade de suas próprias regras e brechas.

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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