Crítica semanal Vanessa Tangerini

O uso do “MacGuffin” em Hitchcock

O recurso conhecido como “MacGuffin” é utilizado pelo cinema e pela literatura. O mesmo consiste em um objeto ou evento aparentemente banal e insignificante em si, mas que é essencial para mover o enredo e motivar os personagens. Como na teoria do “efeito borboleta”, um pequeno fato aparentemente banal pode acabar desencadeando uma série de grandes eventos.

Um casal não tem dinheiro para pagar seu casamento. A partir desse problema banal, os eventos que constituem Psicose serão desencadeados. Um homem contrata um detetive para vigiar a sua esposa, pois acredita que ela pode estar em perigo. A partir dessa ocorrência quase inofensiva, é revelado um assassinato que irá perturbar a vida de vários personagens em Vertigo (Um corpo que cai). Em A janela indiscreta, um fotógrafo acidentado observa os seus vizinhos pela janela para passar o tempo. A partir desse voyeurismo cotidiano, ele presenciará acontecimentos que o farão suspeitar de um assassinato, colocando sua vida em risco.

Fevereiro 29. Foto 1
Vertigo (Um corpo que cai). Cena em que o detetive Scottie espia Madeleine em um museu de arte

Em todos os casos, o evento que desencadeia e ativa a trama é sempre banal e poderia ser substituído por outro, igualmente banal. O crucial sempre virá depois. Em Psicose, por exemplo, o acontecimento crucial é que Marion Crane chega ao Hotel Bates; no entanto, isso poderia ter acontecido porque ela é uma turista que fez uma parada no caminho para o seu destino; ou porque ela é uma inspetora que vai ao hotel realizar uma inspeção. Modificar o evento inicial que motiva o personagem sempre será possível desde que, finalmente, atinja o momento crucial do qual não há retorno.

Nesse caso, a banalidade característica do MacGuffin pode ser uma armadilha, já que pode nos levar a pensar que o mesmo não cumpre nenhum objetivo e é apenas um gatilho para o que virá depois. O detalhe é que, no contexto de uma ficção, tudo significa.

Em sua “Introdução à análise estrutural da narrativa”, Barthes diferenciará duas unidades principais na conformação do relato: os núcleos (nós do relato) e a catálise (recheio), esclarecendo que a funcionalidade das referências banais, e que não desempenham um papel importante no relato, é mais discursiva que narrativa.

Conseqüentemente, embora o fato de transformar Marion Crane em uma turista não mudará o seu destino (já que ela inevitavelmente chegará ao sombrio Hotel Bates, onde encontrará a morte), discursivamente seria outro filme e outra personagem. Não estaríamos mais diante de uma mulher desesperada que decidiu cometer um crime e fugiu sem retorno, mas sim de uma personagem passiva que tira férias. A empatia do espectador com a Marion que roubou será diferente em relação à Marion turista, hipotética e despreocupada, que propomos. Tudo isso porque a construção do significado muda de acordo com cada referente: mulher desesperada em fuga versus turista inocente.

Fevereiro 29. Foto 2
Psicose: O Bates Motel

No universo hitchcockiano a banalidade não é tão banal assim, porque afinal nada é o que parece ser. Desse modo, o uso do MacGuffin acaba cumprindo dois papéis inesperados que, podemos supor, acrescentam humanidade aos seus personagens.

O primeiro é que o MacGuffin lhe permite gerar alterações inesperadas em seus argumentos. Assim, o que ao princípio parece uma coisa (a história de uma ladra de dinheiro, ou de um detetive que vigia a esposa do seu amigo), acaba sendo outra completamente diferente (a história de um serial killer psicótico, ou a revelação de uma mulher que é cúmplice em um cruel assassinato). A vida dos personagens não é uma construção de fatos lógicos em função de uma trama. Os acontecimentos tomam rumos inesperados, imprevisíveis e às vezes absurdos, que acabam revelando ou dando origem a uma história que, até então, estava oculta.

O segundo papel é apresentar os personagens de uma perspectiva cotidiana. Eles aparecem enquadrados em atividades cotidianas sem importância, como espiar vizinhos, sofrer com os chefes no trabalho, ou encontrar um velho amigo para almoçar. Nenhum desses eventos ocorre por algo que os motive. No mundo de Hitchcock, os personagens deambulam por suas vidas até que, inesperadamente, estão envolvidos em acontecimentos dos quais não podem escapar. Suas ações avançam mais pelo fato de que não podem evitar os episódios que se sucedem ao seu redor, e menos porque os personagens tenham alguma falha trágica que os leva a agir.

Fevereiro 29. Foto 3
A Janela Indiscreta: Jeff, o vizinho voyeurista.

Em conclusão, o dispositivo MacGuffin, ao permitir a introdução da banalidade como parte integrante do relato, ao mesmo tempo em que desencadeia os eventos da trama, acaba sendo usado pelo diretor para criar personagens menos heróicos e mais comuns. Assim, propositalmente ou não, eles terminam sendo reflexos mais próximos da nossa própria cotidianidade. Talvez, também, da nossa condição humana contemporânea, na qual não somos vítimas do capricho do destino, mas da incompreensível e cotidiana casualidade.

 

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

um comentário

  1. Caríssima,
    Tudo de bom pra ti.
    Falar deste mestre do cinema não é coisa facil, porqie ele por si ja é um enredo de mistérios.
    Confesso que aprendi a forma tão lucida e simplificada como expôs o tema em epígrafe.
    Keep moving.

    Curtir

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