Crítica semanal Daniela Avellar

RESPIRAÇÃO – CAOS, POESIA E CAPITALISMO FINANCEIRO

É falando de sua condição asmática que o escritor italiano Franco “Bifo” Berardi abre seu livro de 2019, Breathing – Chaos and Poetry, lançado pela Semiotext(e) e que recentemente fora traduzido para o português, pela Ubu editora, junto da tradução de The Uprising – On Poetry and Finance, sob o nome de Asfixia – capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. Trata-se, pois, de um livro dedicado à condição contemporânea de falta de ar e sufocamento, apontando a poesia como linha de fuga possível desse cenário de dificuldade respiratória. A esfera da vida, para o autor, parece invadida por um caos cujos fluxos são capazes de paralisar o corpo e levar nossa respiração a um estado de asfixia. A poesia como um modo de linguagem e de prática, por exceder o campo do significado, aponta alguma possibilidade de harmonia a ser inscrita no presente caos.

A esfera das finanças, por sua vez, é hoje governada por algoritmos. O absolutismo financeiro ao qual estamos imersos exerce, na visão de Berardi, uma espécie de controle sobre a linguagem. O código tornou-se ferramenta à serviço da submissão do futuro, feita a partir de inscrições algorítmicas no fluxo da língua. Os modos de vida estão hoje, subjugados e sendo desencadeados por uma série de “automatismos tecno-linguísticos” (como nomeia Franco Berardi). O código funciona como uma prescrição, ou seja, para além de inscrever o futuro na linguagem, acaba produzindo-o por meio dela. Os automatismos linguísticos tem uma dimensão performativa a medida que performam os modos de vida, as atividades, os gostos. Código implica alguma precisão sintática de signos linguísticos e é, portanto, um exercício limitado de linguagem. As condições de funcionalidade operacional do código seriam, como aponta Berardi, a consistência, a compatibilidade e precisão sintática. Só assim a linguagem performaria o seu propósito conectivo.

Franco Berardi sugere a ideia de “conjunção”, que diferente da conectividade e para além dela, seria uma atividade entre corpos, uma espécie de jogo, onde busca-se criar sentido compartilhado fora de qualquer sintaxe estabelecida. É nessa busca por outros modos de criar sentido, ligados ao caráter excessivo e a sobra da linguagem, que se inscreveria a prática da poesia, apontada no livro como uma importante saída do imperialismo dos automatismos tecno-linguísticos. Não conseguimos respirar, diz o autor, pois nosso ar fora capturado pela força apocalíptica do algoritmo do capitalismo financeiro.  A poesia é capaz de reabrir o indefinido, através do seu gesto de exceder o significado estabelecido das palavras. A poesia lida diretamente com essa dívida simbólica das palavras, criando jogos infinitos de recombinação de significados. A gramática sempre estabeleceu limites e balizas para criar espaços possíveis de comunicação e compreensão entre sujeitos. Se no capitalismo a economia toma o lugar da gramática universal e passa a atravessar diversos níveis da atividade humana, escreve Berardi, a linguagem passa a ser definida e limitada pelas trocas econômicas, por suas necessidades e preocupações.

O mundo sofreu importantes mutações nas últimas décadas, nelas a evolução da linguagem se dá em um notório agenciamento tecno-semiótico, com a criação de uma rede digital e celulares smartphones que intensificam a densidade de estímulos neurológicos. Há um crescimento da conformação entre mente e rede digital a partir da reformatação e transformação da própria atividade cognitiva. Bifo acredita que o algoritmo é uma unidade semiótica não-vibracional, desprovida de vida, que quando inserida na atividade semiótica, interrompe o fluxo da vida e a continuidade dos processos de significação. Na perspectiva da conectividade, como citado anteriormente, a interpretação é reduzida para um reconhecimento sintático e o signo vibracional é endurecido para que possa ser transcrito em uma linguagem de precisão e exatidão, a partir da lógica da descontinuidade digital. A habilidade de decodificar e interpretar ambiguidades e ironias é perdida nessa transcrição. A diferença é interpretada de acordo com regras de repetição e o limite da indeterminação, que torna possível em outras configurações o tal jogo poético, é cancelado.

O autor afirma que este livro é sobre a respiração como uma busca vibracional por uma afinação dos sujeitos com o ambiente invadido por essas forças perversas, apesar de acreditar que na esfera social a busca está fadada à falência. Berardi tenta realizar uma passagem do campo da busca vibracional por conspiração social, para uma possível expiração cósmica, que se daria na dissolução do sujeito na dimensão cósmica do “nada”. E qual seria o ritmo desse nada? A vibração orgástica, segundo Franco Berardi, é um exemplo de afinação dos bioritmos entre corpos – deixar o inconsciente abrir as portas da percepção cósmica. O escritor relembra o fato de que os franceses chamam orgasmo de petite mort, indicando um momento intenso de perda ou despertar da consciência que permite uma visão do tal nada e simultaneamente abre possibilidades de escuta.

Nos momentos finais do livro, Bifo apresenta uma definição de significado, compreendendo-o como uma construção de ponte feita de ilusões partilhadas sobre o abismo da falta de sentido. Já a realidade, pode ser descrita como uma projeção psicodinâmica de fluxos mentais que se interseccionam, construindo castelos de linguagem aos quais chamamos de diferentes nomes: civilização, história, revolução, comunidade. A amizade, para Berardi, residiria na habilidade de compartilhar essas ilusões de sentido. Quando uma ilusão assim é compartilhada, ela torna-se realidade. A ponte acima do abismo é o diálogo que permite uma expectativa comum, uma intenção partilhada. E esse diálogo nos emancipa do medo de não pertencimento. A ponte pode tomar muitas formas que tornam possível a experiência física de sentido: um apaixonamento, a criação coletiva, o movimento. Sentido é, portanto, não como uma presença, mas uma experiência.

Em Breathing – Chaos and Poetry, Franco “Bifo” Berardi busca pensar uma libertação coletiva do capitalismo financeiro, denunciando seu caráter sufocante, e o faz identificando na poesia um modo respiratório de se relacionar, de viver, de trocar. O autor propõe uma outra forma de operar a linguagem, pensando a ˜conjunção” como relação não puramente sintática entre agentes linguísticos. Se o capitalismo financeiro e seus automatismos tecno-linguísticos determinam as trocas semióticas no mundo de hoje, torna-se necessário pensar, a partir do enunciado performativo, a performatividade algorítmica (como o faz, de algum modo, o livro).

Por vezes as críticas de Berardi beiram certo conservadorismo, quando o autor descreve a conformação entre mente e rede digital como um fardo infeliz rumo à uma melancolia (que não teria saída no plano social?). E como se houvesse apenas um único modo de uso dessas novas forças. No entanto, as questões refletidas no livro miram na necessária aposta de criação de ritmos e vibrações não individuais diante do momento que se impõe, assim como emancipações do signo em relação a referentes plenamente identificáveis no campo da linguagem, como ocorre no jogo poético, corrompendo a prescrição do código. Talvez o mais interessante na obra de Berardi seja a possibilidade de pensar que as quebras e descontinuidades provocados pelo capitalismo financeiro, junto aos seus automatismos e alienações, fornecerão condições de possibilidade para uma reorganização coletiva e poética, enquanto efeito modulatório.

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

 

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