Crítica semanal Gabriel Fampa

Sonic

O vento às vezes nos passa pelas laterais do corpo e deixa uma marca. Uma brisa quente nos atravessa as pernas vinda do interior do espaço, arrastando-se pelo chão, levantando poeira, assinando nossa pele com o toque da ligeireza. Quando se é vento, sopra-se pelos caminhos que se apresentam na própria trajetória que é percorrida. Quando se é vento, faz-se sopro. Esse sopro pode ser azul, pode ser pura velocidade. O que significaria, para nós, tornar-se vento? Para quais confins os caminhos percorridos nos levariam se fossemos, nós também, espontâneo deslocamento, puro ir-se de invisível brisa?

Estamos assistindo Sonic, filme americano, de 2020. Sonic, o personagem central, é um ouriço azul alienígena extremamente veloz e de aparência incomum. Por motivos de conflito em sua terra natal extraterrestre, é enviado através de um portal para nosso planeta e aqui vive furtivamente, sem revelar-se para os humanos com medo de repreensão devido a sua aparência e características incomuns. Mora isoladamente em uma toca na floresta para onde leva objetos de confecção humana, como placas de trânsito e eletrodomésticos, e faz incursões cotidianas e anônimas ao centro urbano mais próximo, onde passa tempo observado escondido a vida humana característica de uma cidade pequena norte-americana.

A potência de sua agilidade é tamanha que torna-se uma mera mancha ao transitar, um rastro de ar azulado imperceptível aos olhos humanos distraídos. Camufla-se, por meio de sua alta agilidade, como vento a passar por entre pessoas e animais em plena luz do dia. Sonic vive na Terra um exílio, parece-nos, em sua própria alta velocidade; um exílio marcado pela mobilidade em um mundo especificamente humano ao qual tem desejo de pertencimento.

Sonic - imagem de texto 1

O ouriço tem uma vivência solitária na Terra. Tornou-se, desde que chegou ao planeta, um observador da vida alheia; um espectro a ver as atividades alheias. Após anos na Terra, o vemos ser descoberto por um policial. Sonic admite a ele: “Eu não estava exatamente espiando; nós estávamos todos passeando juntos, mas ninguém sabia que eu estava lá”. O fenômeno da observação em sua vida, impulsionado por um senso de isolamento social, adquire proporção tamanha que incorpora hábitos e gostos advindos das atividades humanas a personagens criados e vivenciados por ele, que faz uma espécie de vivência teatral em que estas figuras alternam-se umas com as outras em conversas e jogos entre si.

Sonic invade uma sala de atendimento psicoterapêutico e alterna entre a posição do divã e da cadeira da(o) psicóloga(o) a realizar um tratamento de si mesmo. A centralidade destas alternâncias parece residir na tentativa de superação da falta de interação externa. Sonic fala inglês, não basta o contato com o reino animal da terra, ele precisa conversar, jogar, comemorar com outros – outros especificamente humanos. Sonic deseja, em última instância, inserir-se na cultura humana impulsionado por uma predisposição de identificação com ela. E o filme apresenta como plausibilidade para esta dinâmica de alternância entre personagem fictício e personalidade real a própria velocidade, que permite uma troca instantânea entre posições no espaço (como entre a cadeira do psicólogo e o divã do paciente).

Sonic - imagem de texto 2 (1)

A velocidade do Sonic converte-se, deste modo, em um mecanismo de superação falso do problema de isolamento social. Oferece, nela mesma, uma zona de transição quase interdimensional que possibilita duas atividades essenciais: a transição instantânea entre personagens – criando diálogo -; e a mobilidade e inserção invisível no mundo. Sonic pode, efetivamente, torna-se um ser oculto no espaço quando corre. Assim, a agilidade, simultaneamente em que oferece a invisibilidade, permite a fabricação de um tipo interação solitária particular entre duas ou mais facetas de si mesmo. Esta interação, entretanto, não é suficiente para saciar os desejos de contato social e evidencia nela mesma esta insuficiência (a relação psicólogo – paciente, por exemplo, rapidamente cai na constatação própria da solidão por Sonic).

A agilidade em Sonic não leva, portanto, somente de um lugar ao outro; ela cria um espaço em si, um espaço que supera sua própria suposta virtualidade imaterial e se configura como uma zona de conforto acessível somente pela alta velocidade e pela capacidade concomitante de assimilação racional diante dela. Sonic lê toda sua coleção de quadrinhos em questão de segundos; corre até as profundezas do mar e retorna instantes depois com toda sorte de pensamentos que questionam sua posição atual no mundo. A velocidade das ideias e de apreensão do ambiente parece caminhar conjuntamente à velocidade do corpo no momento da ação. Essa capacidade de raciocínio mescla-se, parece-nos, com os reflexos da carne. Velocidade e urgência costumam estar correlacionados; para Sonic há uma urgência em desfrutar da vida apoiando-se no aspecto da diversão. Há um senso de vitória que costura o filme que corrobora com a necessidade pelo divertimento do ser azul. Sonic é caracterizado e referido como uma criança com sede de entretenimento. Mais do que Robotnik – o antagonista de Sonic que deseja capturá-lo – o vilão parece ser o tédio e o desejo pela experimentação do mundo.

Quanto mais desapontado pela carência de contato, mais rápido corre o protagonista. Pela decepção de se ver sozinho em um campo de baseball atinge velocidade inédita que causa um apagão na cidade. O veloz é associado aos sentimentos de tipo arquétipo de Sonic, como a felicidade, a raiva, a solidão, sendo uma resposta específica a cada um desses estados emocionais – quanto mais intensa a configuração interior, maior a resposta exterior do corpo. É notável que Sonic sente prazer em ser rápido, há um certo orgulho de si. Então por que ler quadrinhos em uma velocidade absurda? O extremamente veloz é o modo natural de assimilação de mundo de Sonic? Desconfiamos de que há um ciclo que se auto alimenta: quanto mais tédio, mais rápido. Quanto mais rápido, menos alternativas ainda não visitadas, mais necessidade pelo novo. O esgotamento das atividades solitárias caminha concomitantemente com aumento da velocidade em uma relação que se auto alimenta, e que desembarca na criação de uma catástrofe elétrica na cidade.

Sonic - imagem de texto 3

Poderíamos recair sobre a pergunta de se o vento tem pressa. Existe algo tentador na velocidade, uma sensação sedutora de poder e perigo iminente. Parece-nos natural que se queria desfrutar da velocidade máxima que se possa alcançar, para sentir o vento, para ser vento. O que acontece quando nos tornamos brisa? O corpo some, mesclamo-nos com o próprio impulso que leva para onde quer que estejamos indo. O corpo de Sonic – suas pernas longas, sua envergadura estranha esguicha – está intimamente ligado a sua habilidade de ser corriqueiro. A fonte mesma da necessidade de isolamento – a aparência – oferece os meios insuficientes de sua solução – a velocidade. O corpo se apresenta como problema duplo: é problema e é solução falsa do problema. Sonic incorpora a velocidade como se fosse ele mesmo um vértice dela. Seu próprio nome sugere esta confusão entre ser e potencialidade do ser. Para onde a velocidade o leva? Ela não leva, ela é. É a incorporação própria do desejo. Enquanto corre, Sonic pode subir em prédios, cruzar estradas, penetrar florestas, andar por entre pessoas. Há um senso de liberdade extrema neste poder de deslocamento invisível. Há, entretanto, uma insuficiência na velocidade como coisa em si, uma carência neste ser que é manifestação pura de sua potência. A invisibilidade, expressão máxima do veloz, não basta: superar o isolamento, paréce-nos, é necessariamente superar o problema da velocidade que se apresenta como solução provisória para Sonic.

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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