Crítica semanal Daniela Avellar

SE LINGUAGEM É VIRUS, ESCRITA É AGENTE INFECCIOSO

William S Burroughs considerava a linguagem, sobretudo a escrita, como um vírus. Concepção que fora aproveitada e retrabalhada por Laurie Anderson, em um trabalho de 1986, ano em que os vírus de computador, maliciosos softwares projetados para danificar máquinas, tornam-se notórios.

Toda sociedade possui um conjunto de regras e instruções regulatórias mais ou menos imperativas que incidem na forma como nos relacionamos, vivemos, performamos. Na concepção trazida por Burroughs, a linguagem, que age como uma infiltração de dimensão virótica na vida humana, opera tanto enquanto uma via de comunicação, quanto como um meio de controle.

Se a repetição é condição sócio histórica da linguagem, o ato de fala parece, de algum modo, delimitado por sua inscrição social. Os enunciados também atuam, pois, como operações complexas capazes de constituir sujeitos através da interpelação. Os rituais repetidos são capazes de determinar as condições linguísticas das possibilidades de sobrevivência.

Frente à essas condições e modos de funcionamento, William Burroughs retoma e modifica o método dos cut-ups, já presente nos poemas dadaístas, como meio de tentar quebrar o controle imbuído na manifestação e uso da linguagem nos rituais sociais. Esta prática de decupagem implica em nada mais do que recortar textos como modo de produzir novos rearranjos de palavras e ideias, de forma a liberar conceitos e relações regulatórias anteriores.

Se o vírus é como um parasita que chega para destruir, algo que introduz desordem nos processos comunicacionais e pode desmontar códigos e decodificações de mecanismos e suas inscrições, o método cut-up pode aparecer como vacina, isto é, um modo de imunização que passa por uma exposição mínima ao agente causador da infecção. Embora, por outro lado, a prática possa funcionar como um modo de fazer com que a escrita afete ainda mais o discurso vivo, assim como desregular as posições já estratificadas de autoridade sobre o uso da linguagem. Uma dissolução dos binarismos que partem de forma dual processos como palavra/mundo, sujeito/objeto…

Talvez seja preciso reconhecer e afirmar o vírus como marca característica irremediável da agência da linguagem escrita, de infiltrar a linguagem falada e agir como infecção – uma aparição de um outro que se impõe de forma radical como uma diferença.

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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