Crítica semanal Gabriel Fampa

Diário 1973 – 1983 (hoje vamos escolher apenas uma cena)

Um passarinho enquadrado entre as quatro bordas do plano da imagem. Este pequenino animal está, ele mesmo, entre galhos, folhas e a terra que imagina-se úmida. Espere, a imagem é em movimento, passarinhos se movem rápido, quase não param no lugar. A cena dura por volta de três segundos e o pássaro voa para fora do quadro da câmera, para longe, para onde só se pode, novamente, imaginar. Assim que sai, é substituído, na mesma posição em que estava, por outro pássaro, aparentemente igual (exatamente igual para nossos olhos distraídos) a ele. A cena corta para outra, o filme segue adiante.

Estamos assistindo, mais uma vez, a Diário 1973 – 1983, diário fílmico do cineasta brasileiro radicado em Israel David Perlov. Quando digo mais uma vez, refiro-me ao fato de que dediquei minha dissertação de mestrado a refletir e escrever sobre esta obra de Perlov. Hoje, entretanto, não vem a vontade de falar sobre a pesquisa, mas sim de olhar o passarinho da imagem; de escolher esta imagem do diário e discorrer livremente sobre ela. Afinal, Perlov declara no início da obra estar interessado em registrar as imagens do cotidiano costurado na cidade em que escolheu morar, Tel Aviv – e nada mais do que isso. Logo, creio que seja feliz o desejo de escolher uma cena mundana, dentre as diversas que ele nos apresenta, para observar.

Diário 1973 - 1983 imagem de texto 01

Antes de discorrer sobre o que vemos, não podemos nos esquecer que esta imagem tem movimento, que o passarinho de corpo aparentemente frágil move-se com ritmo imprevisível e frenético. Aliás, observar passarinho é intuir voo; mas é também suspender-se em uma nova temporalidade, uma que existe enquanto movimento exclusivo de um corpo ágil e quente. Talvez assistir ao diário de Perlov seja uma experiência semelhante, seja intuir sempre a próxima cena, a próxima rua percorrida, o próximo rosto retratado, a próxima janela entrevista, o próximo animal registrado em meio ao urbano; mas é ater-se ao que se vê e ao que se vive, é ser conduzido pela cinestesia do olhar. E como fica o atrito? Sobre o passarinho, quando se sabe que algo está na iminência de acontecer, quando se vê um pássaro de uma perspectiva tão privilegiada, poderia olhar-se, num lampejo de consciência, com a expectativa do fim. Mas se o fim é voo, então é bem vindo.

O acaso de um animal exatamente como aquele substituí-lo no mesmo local imediatamente após o voo é, a seu modo, fascínio. Para onde foi? e de onde veio? são duas perguntas sempre possíveis. Mais do que possíveis, sedutoras. E se quisermos ir mais longe, ou mais para dentro, podemos nos perguntar a que relações com o mundo, o nosso mundo, remete esta troca fortuita dentro da imagem de um animal pelo outro. Pensar sobre esta substituição, no contexto inevitável do diário, rapidamente remete à dificuldade de alcançar a resposta. Não vemos para onde foi nem de onde veio; observamos, entretanto, que foi e que veio. Assistir aos registros de Perlov é ser recorrentemente convidado a perceber as ações do mundo em si. A princípio, pode-se entender neste convite um desejo de esvaziamento político dos acontecimentos da vida. Do mesmo modo, é possível compreender na escolha de analisar uma cena destacada da obra o deslocamento de sua condição contextual e narrativa. Rapidamente, porém, esse isolamento, este recorte, mostra-se insustentável: uma fala penetra a imagem e a corta horizontalmente – uma fala sonora, mas também em formato de legenda, branca e imaterial.

Diario 1973 - 1983 imagem de texto 02

Ainda tento manter um vínculo com o mundo e o passarinho vai embora. E a frase vai embora. Ver que o passarinho veio e foi mostra-se insuficiente. Talvez a imagem seja insuficiente; talvez seja no seu ato de registro que resida a problemática deste tentar que remete à impossibilidade latente que se alastra das mãos ao infinito. E o passarinho? Não sabemos; voa. Escapa da imagem como aquele que titubeia e foge da jaula que foi deixada aberta. Há um senso de liberdade em ver um pássaro voando para fora da imagem, sumindo para não ser visto, ou ainda, para ser confundido com outro. Sentimo-nos felizes em ver que o corpo negou a continuidade do filme. E que a cena foi interrompida por uma vontade sem explicação de ir, de abandonar o local, de deixar o registro. Se o lugar – as folhas, os galhos e a terra aparentemente úmida – ficou vazio com sua ausência depende de como cada um de nós entende este termo, vazio.

Diário 1973 - 1983 imagem de texto 03

A substituição de um pássaro por outro é tão instantânea que este intervalo quase não dura – o buraco na imagem quase não dura. A perspectiva tem essa característica de confabulação. Se antes era passarinho, agora, é floresta. O que tem ao fundo? Concreto? É concreta? Cremos um pilar; de concreto. O mundo do diário fílmico que assistimos nos parece ter essas brechas por onde entram e saem imagens. O buraco é túnel que respira transição. A imagem é quase estática, mas o produto do mundo, o cotidiano, é movimento. E é tão movimento, que é acaso, acaso de novo pássaro.

Quando pausamos o vídeo, uma nova constatação, ou melhor, um novo desejo nos vem: arrastar-se pela terra. Percebemos que dentro dessa floresta tem um outro mundo que não vemos: o espaço para deitar; o nosso deitar. Sujar o corpo de terra, respirar frescor, incomodar-se com a pele coçando, ter nojo de sujeira. As imagens e a fala de Perlov constantemente nos reafirmam o quanto de nós mesmos está em tudo que vemos, o quanto doamos ao que o corpo capta, o quanto isso tudo nos afeta. Ao contrário de um esvaziamento político, creio que haja reafirmação de uma subjetividade que reage, cansadamente, ao fato de ser e estar sempre sujeita; e que reage pela exaltação de seu desejo puro de pertencimento. E para não esvaziar o sentido da palavra, vamos deixar, só dessa vez, em aberto: pertencimento.

Diário 1973 - 1983 imagem de texto 04 (1)

Observar animais em registro audiovisual é sempre uma experiência curiosa, a qualquer momento eles podem esvaziar o quadro cinematográfico; olhar para tela, cruzando olhares conosco, espectadores; mostrar-se indiferentes; ser inconvenientes; entrar à imagem; pousar onde não devem; pisar onde não podem; expor obscenidades; fazer as necessidades; morder; latir; grunhir; rosnar; miar. O passarinho é um pequeno achado da câmera, assim como o ângulo que evidencia uma relação de figura e fundo composicional também o é. Tem-se a impressão de que Perlov decidiu parar de gravar quando o pássaro voou para fora, mas outro penetrou no último instante antes que o dedo soltasse o disparador da câmera. Quando o primeiro pássaro segue o rumo, os olhos pairam por alguns segundos na imagem que resta ali. De uma composição, vai-se a outra. De um pensamento, vai-se a outro. De uma sensação, viaja-se sem rota. E os olhos, seguem pairando.

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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