Crítica semanal Gabriel Fampa

TOY STORY

Quando uma criança ganha um boneco Buzz Lightyear de aniversário e o leva para seu quarto, o coloca em meio a todos os seus outros brinquedos e prepara o cenário da diversão que se dará nos próximos dias. A alegria faz-se plena enquanto dura. Ao sair do quarto e deixar os brinquedos sozinhos, estes ganham vida, levantam-se, movem-se, falam, organizam-se enquanto comunidade. Ao escutarem (também escutam) a criança aproximar-se novamente do cômodo, voltam aos lugares que ocupavam antes e fingem-se de mortos, caem duros no chão e comportam-se como objetos sem vida. Contêm-se como nós, humanos, esperamos que brinquedos se comportem: estáticos, sem vida. Permitem-se, nesse estado inanimado, serem manuseados e jogados de um lado para o outro sem sair da supressão absoluta da personalidade de seu ser e dos impulsos do organismo vivo (como a auto preservação e os reflexos automáticos do corpo). Estamos, aliás, assistindo Toy Story, filme americano de 1995.

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O que significa fingir-se de morto? Em situações de perigo iminente, nós, animais, podemos encenar corpo sem vida para que predadores ou homicidas passem direto, para que não notem ou não deem atenção ao estático ou ao já derrotado. No caso dos brinquedos de Toy Story, fingem-se imóveis para não assustarem os humanos revelando-se objetos inorgânicos providos de vida e de capacidade racional semelhante a da nossa espécie. Aliás, já aqui notamos fato curioso: a personalidade de cada brinquedo condiz com o design de seu corpo. O cowboy comporta-se como dotado de boa capacidade de liderança; o desbravador espacial comporta-se como corajoso e destemido. Há uma correlação direta entre a leitura simbólica destas características materiais com a personalidade incorporada por cada boneco. A personalidade não é adquirida ao brinquedo como se vê no filme Boneco Assassino, no qual a alma de um humano é alocada ao plástico; em Toy Story, a personalidade, a vida, é criada a partir do próprio design. Os soldados de brinquedo comportam-se como soldados. Com exceção do dinossauro que é medroso, há correspondência direta entre corpo material desenhado anteriormente por humanos e o papel desempenhado pelos brinquedos em vida.

Podemos nos perguntar, em nossa própria brincadeira, se os brinquedos escondem sua vida dos humanos como forma de protegê-los da verdade ou por receio de serem destruídos frente a sua incompreensão. Teoria outra seria de que se escondem não por medo, mas por gosto. Existe uma evidente satisfação nos brinquedos de serem manuseados e amados por seus humanos. Tal constatação é reafirmada pela coincidência entre o brinquedo favorito da criança e aquele que assume a liderança no quarto de brinquedos. Woody, o personagem principal do filme, é o boneco favorito do seu dono (nesse caso seria melhor usar a palavra cuidador) e é líder dos outros brinquedos. Quando Buzz o substitui como favorito do menino, intuímos que Woody receia ser substituído na sua posição de liderança. Ser o favorito é uma espécie de eleição divina; e há, desse modo, uma influência direta de um mundo sobre o outro (o mundo da manifestação da vida e da atividade e o mundo do teatro inanimado e da manipulação pelo outro). Assim, por extensão do pensamento, são os humanos, em Toy Story, que escolhem os líderes dos bonecos elegendo-os como brinquedos favoritos, sobre os quais os outros brinquedos posteriormente se debruçam e confiam.

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Quando Woody e Buzz ficam presos na casa de um adolescente caracterizado como rebelde que destrói seus brinquedos, arrancando-lhes a cabeça, queimando suas pernas, amarrando-os em fogos de artifício, Woody expressa seu receio de morrer. O que significa a morte para um brinquedo, ou melhor, como se morre sendo plástico (onde está a vida)?  Curiosamente, no quarto de bonecos do adolescente rebelde e cruel não há um brinquedo líder, é Woody que assume essa função ali também. Estes brinquedos do adolescente (e ele também) são introduzidos no filme como outros, deformados e sem líder, ou seja, anárquicos. O sistema anárquico do quarto é apresentado como uma doença, como carência de sensibilidade ou empatia pelo outro. Os brinquedos ali não são capazes de falar e configuram-se como combinações monstruosas de partes de diversos bonecos encaixadas juntas. Quando Woody se comunica com um brinquedo composto por pernas de Barbie e uma vara de pesca infantil, refere-se a ele como Pernas, demonstrando a mentalidade de violência ao diferente, nomeando o outro pelas suas características primárias, pelo que é diverso nele, pelo que é estranho nele. Revela-se, através do líder, o caráter cruel daquilo que se apresenta, indiretamente e superficialmente, como social-democracia, que se vê heroicamente como única forma viável de organização e enxerga com leviandade no outro sempre o primitivo irracional (expressa na aparente incapacidade de fala ou organização) que tem uma serventia específica.

A própria inanição, em Toy Story, é uma extensão da afirmatividade do filme de uma hegemonia de liderança normativa excludente; o fingir-se de morto serve somente a duas possibilidades de propósito: manter a ordem natural do conforto humano devido ao receio do que significaria a descoberta da vida inorgânica; ou alcançar prazer genuíno em satisfazer os humanos agindo como estes pensam ser os brinquedos (seres totalmente abertos ao manuseio sem nenhum poder de decisão sobre o próprio destino). De um modo ou de outro, reafirma-se que a personalidade e as aflições destes pequeninos seres são manifestações restritivas e excludentes das preocupações pré-existentes humanas, expressas em última instância no próprio design. Toy Story afirma, dentro de seu próprio contexto narrativo, que o prazer em ser utilizado como ferramenta de diversão é espelhado no próprio imaginário humano, que concebe, de antemão, o brinquedo como essência do divertimento infantil. Não à toa, a comunidade de Woody e seus amigos é tão centrada na figura do líder, pois é costurada no imaginário da serventia. Ou seja, há uma problemática de livre arbítrio em Toy Story.

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E quanto à subjetividade dos brinquedos? Existe uma expressão que pode ser usada para designar, a grosso modo, a isenção de subjetividade e individualidade humana. A reificação é um processo típico das relações de trabalho das sociedades industriais que aloca pessoas como meros mecanismos produtivos automáticos e coletivos. Vemos em Toy Story o processo contrário da reificação, ou seja, a incorporação da subjetividade humana em uma coisa? Existe, efetivamente, uma incorporação humana nos bonecos? No ápice do filme, temos também a máxima da humanização (nas cenas finais, Woody troca beijos com uma boneca, apresentando desejo carnal)?

Pode-se cair, com estas indagações, na aproximação de dados semelhantes, porém diferentes. Há, certamente, algo que humanos e brinquedos compartilham no filme. Isto não significa, creio, que exista algo de humano neles, mas que nossa concepção do que é ser humano é totalmente ressignificada frente a existência de outros seres que compartilham tamanha capacidade de comportamento, assimilação de aspectos culturais específicos e habilidade cognitiva e corporal com grupos específicos de organização humana (ou, se quisermos pensá-los como humanos, temos que nos pensar como brinquedos também). Os bonecos refletem e incorporam em si a mentalidade cultural (a aversão pelo outro, a ênfase em um regime de liderança, o individualismo e a arfimação de que brinquedos são coisas sem vida) por trás do design que lhes dá forma e das referências simbólicas adjuntas.  Mais do que nos perguntarmos o quanto de humano há neles, reafirmando a aproximação binária e uma concepção excludente do que é ser humano (confundindo-o com o humano caricato da sociedade urbana norte-americana), seria interessante atentar para esta capacidade semelhante em Woody e seus amigos (do desenvolvimento e existência da linguística, códigos, hábitos, medos, desejos, sentimentos e emoções) repensando, deste modo, como nos entendemos como espécie e como nos vemos como seres que compartilham um mesmo senso de vida com outras formas de existência.

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

um comentário

  1. Nossa! Que análise profunda! Abre nossos olhos! Não nos deixemos ser manuseados assim como Buzz Lightyear, não deixemos nosso ambiente anárquico para não sermos a carência de sensibilidade, não podemos “ fingir-se de morto” para não sermos manuseados como brinquedos para não ficarmos sem poder de decisão diante do nosso próprio destino! Amei a crítica ! Despertou em mimuma nova visão !

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