Crítica semanal Pietro De Biase

A ESTÉTICA DA SOLIDÃO – JANELAS (parte um)

O que reivindica uma janela? Álvaro de Campos poderia dizer que são os espaços de reflexão sobre os fracassos da civilização. O artista Leon Battista Alberti, no século 15, teorizou que as pinturas deveriam criar ilusões realistas e miméticas, como uma janela do/para o mundo. A tela enquanto janela para a realidade dogmática da perspectiva. O caminhar dos tempos erodiu a rigidez de perspectiva e realismo propostos por Alberti. As janelas deixaram de ser veículos de representação pictórica, baseada num realismo humanista, para figurarem como elementos significantes de construção plástica e conceitual.

A ideia de quadro como janela persistiu até o final do século 19. No período barroco pelas janelas picturais começaram a atravessar luzes sobre temas ligados à moralidade, como em Steen e Murillo. Esmorecendo ao longo do século 18, a imagem retornou durante o período  romântico. A historiadora Shirley Blum cita Caspar David Friedrich por tratar a janela como divisa entre o real e o inefável, palco para a vida contemplativa.

Já moribundas durante o neo-classicismo, as janelas ganharam novas cores sob a paleta das vanguardas. Mostram-se evidentes os recortes de gênero e classe social das figuras nas janelas. O espaço doméstico, como lugar de aprisionamento do corpo feminino, retrata interiores ora quietos ora soturnos.

hopper
 Edward Hopper, Onze horas, 1926

Em uma abordagem temática pela história da pintura acerca do elemento da janela, denota-se o estado de opressão de corpos, considerável parcela deles femininos. Cada espaço confinado abrange o anterior, contribuindo para um continuum visual, ao reforçar a metáfora do aprisionamento e o sentimento de solidão, matérias primas da pesquisa de Wanda Pimentel. A artista se vale de uma estética pop para delinear uma arqueologia do doméstico, buscando a dissecação do ambiente confinado, a partir de uma taxonomia bem humorada de seus objeto.

Em a Condição Humana, Hannah Arendt explora o conceito de alteridade, enquanto motor da construção da identidade individual. Como acontecimento do mundo, a subjetividade se realizaria, pois, no espaço público que, ao seu turno, abrange o estado de vulnerabilidade salutar e auspicioso à forja das relações sociais. Considerando a construção identitária como fenômeno do mundo na filosofia arendtiana, o “estar na janela” poderia associar-se a uma reminiscência pré-subjetiva essencial. A solidão do confinamento revelaria-se, ao fim e ao cabo, no próprio esvaziamento da identidade humana.

Pela janela do quarto, pela tela vemos o mundo enquadrado. No curso de alguns dias, em razão da política de distanciamento social, ficamos retidos em casa. Por quanto tempo? Ainda não sabemos. O que se tem notado, no entanto, é que durante esse período de reclusão, as janelas, pouco a pouco, voltam ganhar destaque.

O que poderiam reivindicar essas janelas? Talvez sejam elemento-chave que melhor estampe a solidão contemporânea. Hoje, isolados, recordamos, mais uma vez das janelas de Álvaro de Campos, que para além de balcões de meditação sobre os insucessos do mundo, insistiam em nos convidar a sonhar todos os sonhos do mundo – “Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela”.

 

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

 

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