Crítica semanal Vanessa Tangerini

O “anti-pôster”: o problema do suporte-discurso e a relação mídia-arte

O filósofo italiano Maurizio Ferraris (1956) argumenta que uma das características da pós-modernidade será estabelecer uma reconciliação da visão que a Europa tinha dos mass-media estadunidenses, superando um olhar anterior de “compaixão e terror” com o qual os europeus contemplavam o controle que os meios de comunicação tinham sobre a civilização neste país. No entanto, essa reconciliação consistirá mais em adquirir uma imagem da tecnologia como “um processo global de superação do humanismo e do subjetivismo modernos”.

O filósofo aprofunda nessa superação dos ideais modernos quando se refere ao domínio que a comunicação começa a ter sobre outras formas de produção cultural, afirmando: “Ali, na verdade, não apenas nos confrontamos com o universo da comunicação que sucedeu à produção, mas radicalmente, as formas dessa reflexão (escrita, pintura etc.) passam a ser sobredeterminadas pelos modos de comunicação (mídia, informática, publicidade)”.

Na obra Un guerrillero no muere para que se lo cuelgue en la pared (1969), apropriando-se do suporte e da estética dos mass-media, o artista argentino Roberto Jacoby (1944) problematiza a técnica artística tradicional e os formatos utilizados pelos meios de comunicação. O “anti-pôster” do Che Guevara, ao mostrar a imagem icônica do guerrilheiro argentino-cubano com a inscrição que dá o título à obra, gera a possibilidade de (re) pensar sobre a relação entre arte-meios massivos e ideologia- pós-modernidade.

Março. Sábado 28. Imagem

Ao usar o formato de pôster para ironizar a banalidade desse suporte como um formato para reprodução gráfica massiva e/ou publicitária, o artista utiliza a técnica, iconografia e suporte dos mass-media (o pôster, neste caso, reproduzido massivamente em uma revista) contra si mesmos. Podemos ver como as formas de reflexão (escritura, pintura, etc.) as quais o filósofo Ferraris se referia serão “sobredeterminadas pelos modos de comunicação”.

No entanto, no caso de Jacoby essa sobredeterminação, isto é essa inevitável influência dos mass-media sobre os produtos e processos artísticos, se torna consciente na medida em que é usada como veículo para criticar esses formatos como ferramentas de banalização. A técnica da obra não é apenas um suporte formal e um veículo de elaboração para o conteúdo discursivo, mas também produtora de conteúdo e significado em si, ao estar vinculada às formas de reprodução dos meios massivos, como é o caso do pôster.

Por outro lado, se entendemos a pós-modernidade, como propõe Ferraris, como um momento no qual a ruptura com o humanismo e o subjetivismo moderno se torna evidente através da relação estabelecida com a tecnologia (expressa pelo mass-media), poderíamos ler essa obra quase como uma expressão dessa problemática.

Ao criar um “anti-pôster” a partir de uma imagem icônica de um guerrilheiro revolucionário, Jacoby realiza uma dupla reflexão, não apenas sobre os meios de comunicação massivos como dispositivos de banalização, mas também como evidência de um colapso da narrativa ideológica moderna.

Se a modernidade vai propor a revolução como um motor do progresso e o revolucionário como uma expressão do sujeito como o motor da revolução, morrer na busca desses ideais políticos, em última análise modernos, torna-se banal quando a imagem do guerrilheiro de esquerda (assassinado pelas mãos de um regime militar de direita) é reproduzida pelo aparato capitalista e vendida ao mercado de consumo.

O pôster não é apenas um suporte de reprodução dos mass-media que o artista utiliza como meio de ironia, senão que também se torna uma espécie de evidência da ruptura, da impossibilidade de revolução na pós-modernidade, quando Jacoby acompanha o pôster com a sentença: “Um guerrilheiro não morre para ser pendurado na parede”. Ao afirmar que um guerrilheiro não morre “para isso”, o artista evidencia a queda de um dos grandes relatos ideológicas da modernidade[1] e, como afirma o filósofo Ferraris, a ruptura com o humanismo.

P.S.: Para ver mais obras desse artista, basta clicar aqui.

[1] Segundo Maurizio Ferraris, a idade moderna é caracterizada por um conjunto de “grandes narrativas” cujo objetivo é a legitimação política e social do saber, e que pode ser reduzida a três arquétipos fundamentais: a narrativa do Iluminismo, a narrativa idealista e o marxismo.

 

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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