Crítica semanal Daniela Avellar

QUANDO SÓ O DIGITAL NOS RESTA, COMO SEGUIR?

Diante das medidas de isolamento social, necessárias frente à pandemia que estamos atravessando hoje em escala global, praticamente todos os eventos de arte presenciais foram cancelados. O que abriu espaço para o digital servir de locação em relação à exposições, residências, entre outras propostas. Todos os dias proposições como essa me são sugeridas, seguindo o algoritmo tendencioso de minhas redes. Não cabe aqui elencá-las, sendo muitas e variadas, quando minha reflexão não se dirige à nenhuma específica, mas sim à tendência que tenho observado.

Se a chegada do vírus é algo que incide nos modos de funcionamento de vida de cada território; se é possível dizer, após a leitura do texto de Paul B. Preciado[1], que as fronteiras nacionais cada vez mais imunizadoras, criadoras de uma relação de estranheza e exclusão com o que está fora e alguma permissividade com o que está dentro, agora se deslocam para nossas próprias casas e mais – para nosso próprio corpo e pele; é certo que quem se sente minimamente anticapitalista quer (e deve) desejar que essa pandemia nos conduza à modos de vida mais cooperativos, livres e verdadeiramente sustentáveis.

É preciso, sem dúvida, sair do plano da estratificação do mundo através de fronteiras que imunizam territórios em relação à diferença. Junto à isso, também é necessário entender como o capitalismo hoje atua biopoliticamente através de um controle digital. E aí encosto no ponto comentado no primeiro parágrafo deste texto. Se hoje a vigilância se articula especialmente através das redes, ela constitui um dispositivo que se volta para atributos móveis e circunstanciais – dados provenientes de rastros deixados por nós a partir do uso da internet.

Dito isso, também é necessário compreendermos como a vigilância contemporânea não opera mais pela negatividade; ao contrário, hoje ela tem um atuação positiva, criando espaços onde também circulam afetos, libidos, desejos. Preciado chega a sugerir, no artigo supracitado, que o período de quarentena seria o momento para nos desconectarmos e estarmos com menor presença no digital. O controle hoje atua como um imperativo, a positividade da vigilância se dá pela incitação feita por seus mecanismos para que nós performemos o tempo todo e a qualquer custo. Se por um lado parece que atravessamos um momento de altos excessos e muitas atividades, por outro, paradoxalmente, parece que estamos presos em uma passiva inércia. De pano de fundo, há sempre uma espécie de estímulo para que estejamos sempre nos arriscando, superando limites (daí o fenômeno do coaching). Toda variedade e praticidade, promessas da incorporação do smartphone à vida cotidiana, parecem ambíguas quando notamos que como condição nos tornamos absolutamente subserviente à coleta de dados cujo monitoramento satisfaz tantas matizes.

Diante de tantos impasses paradoxais, o desmembramento do que seria bom ou ruim apresenta-se como uma missão quase infernal. Sobretudo agora. Talvez seja preferível pensar além do bem e do mal, entendendo que o uso que fazemos de todas essas ferramentas tem suas consequências comprometedoras se realmente estamos pensando em uma construção de modos de vida menos violentos com tudo que nos rodeia. As vezes sobra mesmo a sensação de que não é possível respirar. Curioso que o principal sintoma do vírus em questão seja a falta de ar.

Enquanto há algum oxigênio, fica evidente que a medida que a pandemia nos relembra sobre este mundo não ser em nada razoável, a medida que ela nos força a pensar, é certo que as apostas das produções em arte em tempos de pandemia devem, ou deveriam, mobilizar uma linguagem que não caia no erro de acabar por reiterar os modos de funcionamento que já conhecemos e sabemos serem inviáveis. Sendo o meio digital esse território ambíguo, ao mesmo tempo sedutor, generoso e inescrupuloso e repleto de riscos – o seu uso deve mirar em algum caminho que não desconsidere o quanto a internet nos afeta hoje em todos os termos que vimos até aqui.

Contudo, seria um caminho fácil e triste apenas afirmar que nada deve ser produzido se os encontros entre corpos não são possíveis e ficamos dependentes dos mecanismos disponíveis nas redes. Ao mesmo tempo, há de se ter bastante cuidado com o excesso de iniciativas online, a quantidade alta de produção de imagem e ideia. Isso para que a excessiva luz produzida nas telas que se multiplicam por todos os lugares não seja capaz de ofuscar uma necessidade que se impõe, a da arte poder não só elucidar outras possibilidades de organização do visível e do enunciável, mas de mobilizar outra gramática verdadeiramente rompedora de fronteiras imunizadoras, que só reafirmam a convivência e repetição de um “mesmo”. Há de se ter o que, então? Cautela, cuidado, consideração, um pensamento reflexivo que considere o que tem sido produzido em larga escala nesse momento? Talvez. É certo que o digital, no momento, é o que nos resta, é veículo e pode ser superfície. O “como” usá-lo deve assumir, de antemão, acredito, uma contra-conduta consciente.

[1] https://elpais.com/elpais/2020/03/27/opinion/1585316952_026489.html

 

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

 

   

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