Crítica semanal Pietro De Biase

A ESTÉTICA DA OBSESSÃO – LOUÇAS (parte dois)

per Bologna

Desde as vanguardas modernistas, a pintura de Giorgio Morandi (1890- 1964) tem sido uma metáfora da obsessão. Tudo em sua obra – temas, imagens, paleta, relações espaciais, estrutura gráfica- remetem a uma sensação de obsessão e isolamento. Em parte, a obra de Morandi mostra-se  como testemunho da biografia do artista. Ao longo da vida, apesar do prestígio alcançado pela sua obra, o artista raramente deixou o apartamento que dividia com as irmãs em Bolonha, Itália.

Muito cedo, o artista bolonhês teve contato com os expoentes modernos. A descoberta dos horizontes angulosos de Cézanne despertou seu interesse para uma planificação da realidade. Mais tarde, Morandi abraçou a pintura metafísica do seus compatriotas Giorgio di Chirico e Carlo Carrà.

Influenciado pelo caráter enigmático da metafísica, principalmente na espacialidade surrealista de Chirico Morandi começou a desenvolver sua fenomenologia do ordinário. Algumas garrafas, tigelas, vasos. As louças mais banais, que, golpeadas da luminosidade correta e da matéria pictórica enriquecida, edificam as suas celebradas naturezas-mortas metafísicas.

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Natura morta, 1950
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Natura morta, 1941

A abordagem obsessiva do artista sobre esses objetos pode ser vista como uma tentativa de resposta à seguinte indagação seminal. Até onde objetos se mostram úteis? Para obrigá-los a sair de seu mutismo e inércia, Morandi nos propõe uma radiografia das louças envolvidas em sonhos, com iluminação estranha, perspectiva improvável. São objetos, ou melhor, vetores de emoções audaciosas e ainda não completamente decifradas. Emoções que apenas um artista eremita seria capaz de sintetizar.

Tomadas uma a uma, as pinturas são estudos minuciosos de ritmo e equilíbrio. Quando vistas em série, esquemas complexos de rima surgem à medida que os objetos mudam de forma, posicionamento e tom cromático de imagem para imagem, amalgamando-se em poesia de matéria.

O universo morandiano está povoado de objetos anódinos, que repassados repetidamente, revelam a obsessão do artista por uma taxidermia expressionista. O predomínio de elementos repetidos combinados com uma paleta soturna poderiam até sugerir um déjà-vu. Morandi, no entanto, nos prova que o monotemático não implica necessariamente no monótono.

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Natura morta, 1951

Sobre o imaginário do artista, o historiador Cesare Gnudi, salienta que “os objetos aparecem entre sombras fundas e vivas, fugazes como fantasmas, e se tornam móveis e incertos, sombras contra a luz. Sombras e luzes corroem igualmente a consistência real dos objetos, numa atmosfera propensa a uma dramaticidade reprimida e silenciosa, ou invadida por uma morna, patética tristeza”.

A partir de uma demorada seleção, o artista escolhia a pose de suas louças modelo. Sempre iguais. Sempre diferentes. O rigor espartano na arquitetura das composições morandianas se resolve numa beleza subterrânea. De coisas perdidas. Relíquias. Que depois de recuperadas, não tardarão a se perder novamente.

O obsessão temática do mestre bolonhês é claustrofóbica – para alguns, agorafóbica. Sua espacialidade metafísica, contudo, afasta qualquer repetitividade, conferindo vazão a vibrações de emoção, numa tentativa felizmente alcançada de afirmar o valor da existência.

O tempo para Morandi se plasma na acepção proustiana, como sendo aquele que corre no interior. O tempo da arte. As louças se revelam como artifício para a contemplação, que favorece à investigação de realidades que transcendem a experiência sensível. Relampejam ecos pré-socráticos, na medida que o esforço da reflexão consistia em discernir entre as coisas que existem em si e as coisas que existem em outra. O que poderia existir além das humildes louças ?

A introspecção e repetição morandianas perfuram nossa quarentena imposta de muitas formas. Suas louças, no entanto, podem nos levar a lembrar de Bachelard, que, em sua Poética do Espaço, escreve que “todo rincão da casa, todo espaço reduzido onde gostamos de ficar é, para a imaginação, uma solidão, é o germe de um quarto, de uma casa. E ao nos recordarmos das ‘casas’ e dos ‘quartos’, aprendemos a morar em nós mesmos”.

 

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

 

 

 

 

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