Crítica semanal Vanessa Tangerini

Quando voltaremos a caminhar juntos?

Em novembro de 2019 tive a sorte de participar, em Buenos Aires, de uma proposta encabeçada pelo coreógrafo italiano Virgilio Sieni. Trata-se de Cammino Popolare, projeto que o coreógrafo começou a desenvolver no ano 2000 e que, desde então, vem realizando com a sua companhia (Compagnia Virgilio Sieni) em diferentes cidades do mundo.

O projeto parte de uma idéia central: construir uma comunidade em torno à consciência do gesto, atuando e refletindo sobre o tecido social, poético e sensorial da cidade. Para isto, o coreógrafo realiza uma chamada aberta em cada cidade convocando cidadãos de todas as idades, habilidades e origens. Logo, os reúne em uma oficina, ditada pelo próprio com o apoio das suas assistentes, que dura ao redor de nove ou dez encontros e onde é trabalhada a conscientização gestual como um ato democrático. Nesses encontros os participantes, enquanto colaboram e se acompanham, criam diálogos táteis, gerando um ato político que considera a “democracia do corpo” como uma suspensão do tempo. Durante esse constante work in progress, os participantes vivem uma série de experiências baseadas em gestos primários (como observar, dar um primeiro passo ou girar a cabeça a um lado).

Onde começa o movimento? A partir da pergunta pela origem, Cammino Popolare reflexiona sobre o corpo em relação com os demais e propõe formas de acionar juntos. Nessa experimentação, a memória do gesto surge como forma de encontro. Experimentamos o gesto do outro, transformando o gesto cotidiano em belo. Permitimo-nos que os outros corpos sejam a nossa guia em um constante exercício de escuta corporal. Desenvolvemos a espera e o respeito aos limites do corpo alheio: cada um no seu tempo, porém todos juntos. Experimentamos caminhar com o outro e, nessa caminhada coletiva, habitamos um novo tempo-espaço, onde a medida do tempo pelas lógicas de produtividade e consumo do sistema capitalista fica totalmente suspendida.

Abril sábado 10. Imagem-texto

Em cada projeto realizado, Virgilio vai colecionando gestos cotidianos dos habitantes de diferentes partes do mundo. Cada processo culmina com uma experiência performático-coreográfica onde a “comunidade do gesto” é desenvolvida através de um ritual coletivo em repetição. Incorporando a fragilidade e a imperfeição como qualidades estéticas, Cammino Popolare cria um território democrático entre as pessoas, uma dimensão espacial onde se possa incluir ao outro. Surge, também, uma forma de afirmar politicamente uma presença e um sentido para esses corpos em um mundo cada vez mais virtual.

Resulta curioso que, recentemente, um companheiro mencionou estar impactado pelo fato de que, enquanto nos preparávamos para caminhar juntos, acompanhando uns aos outros e entendendo-nos através do gesto e do contato corporal, do outro lado do mundo já se estava gestando aquilo que, hoje, nos impõe uma distância física tão grande.

Como articular gestos em comum na atual conjuntura? Como avançar juntos quando há uma privação do corpo? Como gerar espaços-tempos que não estejam regidos pela lógica da produtividade e do consumo quando só o digital nos resta?

Quando voltaremos a caminhar juntos?

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

 

 

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