Crítica semanal Daniela Avellar

RADICAL KARAOKE

Radical Karaoke[1] de Bélen Gache é, nas palavras da artista, “um dispositivo online que permite qualquer usuário enunciar discursos políticos”. A mesma identifica um domínio da retórica no mundo da política hoje, onde clichês linguísticos e fórmulas demagógicas se reproduzem feito vírus. Neste trabalho Gache busca criar uma espécie de karaokê online, mas em vez de letras de música, o espectador deve entoar, como no uso do teleprompter, peças sonoras que são construídas a partir de estruturas fixas capazes de incorporar textos aleatórios através da operação de algoritmos. Esses textos são como paródias de discursos hegemônicos. O usuário também pode, à medida que lê os textos propostos, através da manipulação de teclas do computador brincar com diferentes efeitos sonoros e visuais.

O dispositivo requer acesso à webcam, e dessa forma nos devolve a imagem de nós mesmos, com corpo e voz presente, ocupando o lugar de qualquer figura passível dessas atribuições genéricas: o poder, as corporações, a política. Na visão da artista, a repetição mecânica desse tipo de enunciado gera um efeito de paralisação e mortificação da linguagem, sendo difícil precisar se falamos propriamente ou se algo está falando por nós. Nesse sentido o trabalho, se valendo de um jogo poético realizado pelos algoritmos e similar ao mecanismo identificado nesses domínios, gera uma série de questionamentos sobre como somos atravessados por esses discursos repletos de lugar comum.

Radical Karaoke lida com frases instrumentalizadas e nos coloca como agentes dentro dessa dinâmica. É uma obra de 2011 e desde então testemunhamos, em relação a produção de discurso dentro da política, um aumento do movimento de extrema direita pelo mundo, onde o descompromisso e a desresponsabilização com o se fala são latentes. Como aponta Rodrigo Nunes em seu artigo para a Folha de São Paulo[2], é criada uma zona de indiscernibilidade entre a brincadeira e a seriedade com os discursos desse novo (ou suposto) conservadorismo. Através da inserção de questões “polêmicas” no debate público, essas figuras fazem suas ideias circularem, independente da indignação da oposição. Se constatarem ou forem forçados a ideia de que passaram dos limites, assumem que tudo não passou de uma “brincadeira”. Mas o saldo que importa é o fato dessas opiniões já estarem inseridas nas disputas de linguagem, e principalmente, multiplicando-se na infoesfera.

A direita à moda bolsonarista domina as redes sociais e seus mecanismos de informação. É possível dizer que hoje o discurso hegemônico se vale do anonimato da internet, o que facilita muito essa inserção de temas que causam controvérsias no meio digital. E tudo o que um algoritmo quer é engajamento. Podemos ficar indignados com ideias propagadas por essas figuras, mas ainda assim seguimos com a prática de compartilhamento, gerando visibilidade à esses discursos, além de acabar contribuindo financeiramente com eles.

Quando o leitor-usuário toma um papel ativo em Radical Karaoke, as dinâmicas atuais citadas nos empurram para além das tentativas de desconstrução dos discursos dominantes apontados por Bélen Gache, apoiados em lugares comuns e frases pré-fabricadas; partindo para interrogações sobre como é o exercício da linguagem na internet hoje, na economia dos cliques, e como a exercemos em relação à produção de discursos interpelados por alguma sensação de pretensa liberdade.

[1] http://belengache.net/rkaraoke/radicalkaraoke.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/01/alvim-errou-a-mao-na-trollagem-bolsonarista-inspirada-na-direita-dos-eua.shtml

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

 

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