Crítica semanal Gabriel Fampa

O POÇO (parte 1, obviedade)

Estamos assistindo O Poço, filme espanhol de 2019, fenômeno recente nos meios de streaming de filmes online. Estamos intrigados pela arquitetura de interiores de concreto na qual o personagem principal, Goreng, acorda. Estamos curiosos sobre a plataforma que desce a flutuar no ar e passar por cada andar dessa estrutura cinza infindável. Estamos interessados no fato de que na superfície dessa plataforma repousa grande diversidade de pratos culinários parcialmente comidos. Estamos intrigados com o aspecto de confinamento desse ambiente em que Goreng acorda e com o uniforme impessoal que usa. Estamos, sobretudo, atraídos pelo contexto que se desenrola nos momentos iniciais do filme e pela explicação subsequente dos mecanismos do sistema que rege o ambiente que encontramos ali.

O poço – ou Centro Vertical de Autogestão, como é chamado pela administração dessa estrutura – é uma prisão vertical composta por diversos andares, contendo dois prisioneiros por piso. Uma plataforma, repleta de comida, parte intocada do térreo e desce, fazendo pausas em cada andar, em direção ao fundo da estrutura. Os prisioneiros do piso de baixo comem aquilo que sobrou da refeição dos prisioneiros do de cima, de modo que a cada piso há menos comida disponível. Eventualmente, a refeição na plataforma acaba, o que implica que os prisioneiros mais próximos da inferioridade da estrutura ficam submetidos à ameaça constante do estômago vazio. A cada mês, as duplas de prisioneiros são redistribuídas aleatoriamente pelos andares do poço.

O poço - imagem de texto 01

Para prosseguirmos com a reflexão sobre o poço que está diante de nós, é interessante atentar ao caráter muito específico que costura outras análises do filme já disponíveis na internet. Em sua maioria, essas análises, ou reviews, fazem uma espécie de dissecação de O Poço de modo a apontar e explicar sua condição alegórica (que entenderemos sucintamente como a condição da ilustração de ideias e conceitos prévios) e desvendar o significado simbólico de sua conclusão. Existe específico desejo por explicar as escolhas narrativas e estéticas do filme em contrapartidas filosóficas, econômicas e políticas de nossa realidade: em ligeira busca, encontramos na internet correlações entre O Poço e a luta de classes; a descida ao inferno de Dante; a enunciação da religião católica; a ausência da consciência do funcionário na máquina da morte (em diálogo com a máquina nazista); o panóptico de Foucault; a filosofia de Nietzsche; o inconsciente de Freud; o autoritarismo da esquerda e, principalmente, a inviabilidade moral e humana do sistema capitalista atravessado pelo culto à meritocracia. É pertinente lembrar, nesse contexto, que recentemente outros filmes que cativaram grande público têm despertado similares interesses – como Parasita (2019) e Coringa (2019) -, evocando leituras que enxergam neles representações da inviabilidade ética e estrutural de determinados sistemas de convívio (nomeadamente o capitalista) enquanto vértices da disputa humana desprovida de qualquer senso de equidade. E não por acaso esse desejo coletivo do desvendamento e tradução não figurativa da alegoria ecoa dos filmes citados.

O poço - imagem de texto 02

O final de O Poço é marcado pela necessidade de mandar uma mensagem por parte dos prisioneiros à administração da prisão. O que é essa mensagem, como deve ser seu conteúdo material e como afetará a administração termina por ser confuso e incerto. O que importa para os personagens do filme, porém, a grande determinação, é mandar uma mensagem com objetivo de despertar a consciência da administração de que uma transfiguração do sistema é imediatamente necessária. Desconfiamos de que uma semelhante lógica rege o próprio filme. O Poço, porém, parece  menos interessado em nos mandar uma mensagem a qualquer custo do que em nos mostrar algo acima de tudo.

O universo do filme, estabelecido em si, não faz sentido. Há plataformas que flutuam no ar; uma onipresença inexplicável e impossível em todas as salas que pune com frio ou calor o prisioneiro que guarda comida; uma estrutura arquitetônica que não seria viável em termos reais e uma falta de lógica no certificado eventualmente conquistado por Goreng por passar seus dias ali. Essas características impossíveis, ou mágicas, explicam-se a si mesmas por apresentarem-se como produtos da ficção-científica. Outras, porém, não se explicam: há diversas informações contraditórias ou faltantes no filme. Elas existem unicamente para reforçar o que se quer mostrar. A prisão, por exemplo, é chamada pela administração de Centro Vertical de Autogestão. Esse nome indica linguisticamente a responsabilidade e autonomia que os prisioneiros têm para gerir o espaço. Toda regra, punição, disposição no espaço e a própria arquitetura que enfatiza a noção hierárquica entre os prisioneiros, porém, é estabelecida de forma externa, pela administração, e não pelos prisioneiros. Será mesmo possível usar o termo autogestão para esse sistema que ameaça sadicamente os participantes de morte caso não se adaptem a ele e em que a comunicação entre todos é propositalmente tornada inviável? Entende-se que o nome Centro Vertical de Autogestão está no filme não para descrever precisamente o sistema, mas para nos reforçar o revés do fracasso da suposta possibilidade de autogestão, ainda que sua conceituação no contexto poço seja dúbia. Exemplos como esse são recorrentes.

O poço - imagem de texto 03

Mas o que entendemos dessa constatação? Que essa, arriscamos dizer, é a estética do filme: um sistema de afetação que parte, antes de mais nada, do desejo de mostrar, feito por meio da alternância de fragmentos fílmicos designados especificamente a contemplar determinados blocos simbólicos que carecem de diligência com a precisão das informações narrativas dadas e apoiam-se em um senso comum sobre as questões apresentadas. Essa mostração é desejo (acima de tudo) de verossimilhança com o funcionamento do nosso mundo vivido não cinematográfico. Não por coincidência a palavra que mais tem presença no filme é óbvio, dita repetidamente pelo companheiro mais velho de cela de Goreng. Quando Goreng faz qualquer pergunta sobre o funcionamento do poço, a resposta é sempre óbvia. Inclusive, a própria plataforma de streaming que disponibiliza o filme lançou um vídeo no Youtube* enaltecendo esse ponto (a obviedade do funcionamento sistêmico) de O Poço. Quando esse companheiro de cela diz que os de cima não vão responder às súplicas dos de baixo, Goreng pergunta o porquê disso, a que ele responde prontamente: “porque estão em cima, óbvio”.

Isso nos leva a crer que a estética alegórica de O Poço é tão pautada em um conhecimento prévio do óbvio, ou seja, em um senso comum do real não cinematográfico, que a lógica representativa alegórica se inverte. Em certo sentido, não passamos a entender melhor nossa realidade por meio de sua ilustração, mas a ilustração se torna crível e sedutora por causa da relação e do posicionamento que já temos com a realidade ali representada. Desse modo, é aceitável nos termos narrativos de O Poço que os prisioneiros ignorem os pedidos de racionamento de comida porque é assim que entendemos nosso próprio sistema de convivência e concorrência social construído em torno da sobrevivência, acima de tudo, das relações de reprodução e concentração do capital e poder – é aceitável porque é óbvio que se negarão a raciocinar. Só é aceitável que se use o termo autogestão para caracterizar a experiência vivida ali porque de certa forma identificamos nela o trágico do fracasso de gestão como espelho de nossa própria realidade. A alegoria do filme, parece-nos, não funciona como meio de elucidação, ela sobrevive como vontade de ilustração desse óbvio (sendo reafirmada por ele) e de prevalência de determinado senso comum.

O que nos parece interessante, nesse momento, não é analisar se é verossímil ou não essa interpretação da realidade, criticar uma imprecisão do uso de determinado termo linguístico, apontar informações faltantes ou discutir a fragilidade dos conceitos de óbvio e de senso comum, mas perceber que o sucesso comercial do filme possivelmente indica o seguinte tipo de desejo de obviedade: deseja-se, primeiramente, que seja reconhecidamente óbvio que o sistema representado (que tem sua contrapartida no real) não funciona bem; que tudo que ali esteja expresso seja reconhecidamente óbvio; e, em segunda instância, deseja-se (acima de tudo, acima da carência de diligência narrativa citada) ver o óbvio como aquilo partilhável, como senso comum. O gore (violência explícita representada) é a manifestação última dessa estética alegórica da obviedade, porque provém de lógica em que a realidade é (quase) intolerável e é preciso vê-la explicitamente. Sabe-se, porém, que o gore tem seu público, que ver a carne e o sangue na imagem é um prazer partilhável. Pode-se interpretar como semelhante a ele o prazer de ver no filme o sistema em sua face nua, porque desse desgosto visual provém um senso de recompensa, um senso de acesso a algo oculto e eminente que esse público já sabia que estava ali, mas que agora é partilhado explicitamente, sendo sua reprodução estética um atestado de sua transfiguração em senso comum.

Continuemos em uma segunda parte desse texto.

 

 

 

* Vídeo disponibilizado pela plataforma: https://www.youtube.com/watch?v=YZYRXfJS4to

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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