Crítica semanal Vanessa Tangerini

Patrícia, a deusa de barro contemporânea

Patrícia é uma deusa-forno de barro criada em 2017. A entidade em questão nasceu do artista Gabriel Chaile, nascido em 1985 em Tucumán (região norte da Argentina), quem em suas obras explora materiais primários e estabelece relações com as três necessidades básicas do ser humano: a alimentação, a moradia e o trabalho.

Em Patrícia o artista relaciona uma figura materna, uma cerâmica antropomórfica da cultura candelária de Tucumán, com um forno de barro utilizado para fazer pão e termina por estabelecer conexões entre fertilidade, alimentação e a própria história da arte.

Tomando o forno como base, intervém um objeto essencial da vida cotidiana do interior da sua região, cruzando-o com referências culturais e simbólicas, como a sexualidade e a maternidade. Nasce, então, uma deusa-forno com fragmentos antropomórficos que evoca fertilidade e vida com suas formas esféricas e harmoniosas, que nos remitem às antigas estatuetas rituais. Seus olhos se assemelham a vulvas, enquanto a boca é um orifício pronto para soprar o fogo, com ajuda das mãos que o direcionam; já os seus seios estão construídos com mamilos feitos de ovos. Ao mesmo tempo, a escultura está atravessada por uma lareira fálica coberta de seios-ovos. A depender da posição do espectador, o que de um lado parecia ser apenas um par de seios, do outro se transforma nos testículos da grande lareira-falo, revelando as dualidades que a deidade de barro não consegue ocultar.

Abril. Sábado 18. Foto 1

O forno, como uma unidade elementar na preparação das refeições, e o seio feminino, como o provedor do primeiro alimento, são unificados na mesma massa (como numa escultura de argila) que abre uma relação particular entre os dois universos semânticos. Não se trata aqui de uma relação homem-mulher-cozinha, mas de funções socio-simbólicas entre fertilidade, alimentação, calor, ritual, e a união delas na figura de um forno. O fogo, como elemento central da confraternização em vários rituais sociais (oração, comida, dança…) é a grande presença ausente evocada através dessa figura.

Nesse sentido, é interessante notar que, se bem o fogo é ausente, a obra consegue desenvolver ao seu redor ritos sociais que vão além da mera contemplação estático-passiva que rege em muitos museus; transformando o objeto em um espaço de interação social e ressaltando o caráter social primordial desse elemento, ainda quando evocado através de um peculiar forno-deusa de barro.

Abril. Sábado 18. Foto 2

O corpo (ou os elementos que aludem a ele), nessa representação antropomórfica mais evocativa do que figurativa, atua como ponto de encontro e principal relevo sobre o qual se expandem as funções significativas da obra. Assim como em algumas das primeiras manifestações estéticas do ser humano, o corpo em Patrícia adquire uma relação poderosa com o objeto artístico. Nessa perspectiva, é interessante como o corpo, como lugar central da experiência cognitivo-sensorial do ser humano, sempre ocupou um lugar destacado na arte.

Talvez, o que possa ter mudado sejam algumas posições críticas vinculadas às relações sociais que podem ser estabelecidas com certos objetos considerados artísticos.

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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