Crítica quinzenal Daniela Avellar

ESTRANHA CONDIÇÃO DE LIBERDADE

Situado na lacuna entre o vivo e o não-vivo, um vírus trata-se também de uma partícula patológica, ainda que não seja algo que existe somente por esses aspectos. Até os biólogos reconhecem que a coisa não se basta somente aí. Um vírus penetra a célula, altera seu sistema, causa estranheza na recepção, produção fundamental de diferença. Existe toda uma rede de ideias que concatenamos enquanto uma pandemia. Vírus é veículo. E essas ideias nos ajudam a pensar em crises planetárias e nos levam, invariavelmente, a refletir sobre que mundo queremos construir.

A dinâmica viral é algo que merece ser compreendido também a partir da cultura e através de processos epidemiológicos no sentido da criação de comunidades e grupos por via do contágio. Todo vírus opera por uma máquina incessante de repetição e por isso multitudinária. Evoca sempre multiplicação. Gera movimentos de contaminação através da produção de uma série de cópias. Um vírus liga-se à ideia de imitação.  O eu é contaminado pelo outro e o outro pelo eu. Vírus denota um processo marcadamente coletivo. Para além de um corpo infectando o outro, é preciso pensar sobre um processo grupal que se impõe.

Se abandonarmos a noção de que construção de comunidade, de grupo, se dá menos pela reunião de subjetividades individuais, abrimos espaço para uma ideia de que as relações se estabelecem por pontos de contágio entre corpos. Com isso é possível dizer que contaminação e risco são aspectos importantes em relação à disponibilidade de um corpo para outros corpos. E portanto atributos determinantes da vida. A atual pandemia nos conduz à uma inegociável condição de fechamento, quando ir ao mercado ou mesmo até à esquina consiste em uma situação marcadamente perigosa. O momento que passamos deflagra o corpo como situação de risco e nos recoloca condições de liberdade, já que somos privados do caráter inerente do estar-junto por conta de estratégias visando o não-alastramento da doença. Não podemos, desse modo, seguir outros contágios permanentes que constituem redes de afeto e energia.

A contaminação se manifesta agora como proibição impositiva, dilatando as fronteiras nacionais imunizadoras, estratificantes e violentas para nossas próprias casas, corpos e peles. Restamos subordinados, entre outras mudanças, à presenças mediadas pelo ecrã. Franco Berardi acredita que vivemos há um tempo sofrendo alterações em níveis cognitivos frente à mortificação característica das relações contemporâneas, diante da intensidade das trocas comunicacionais filtradas pelas máquinas algorítmicas. Esse ritmo, segundo o autor, exclui o outro enquanto porosidade, o reduzindo à categoria de mera informação.

Vivemos este momento pandêmico onde o veículo-vírus cria um corte no fluxo dos encontros e portanto, secciona a própria vida. As vanguardas da arte tomaram a dissolução da arte na vida e vice-e-versa como um importante projeto político. É possível dizer que a arte hoje é um domínio de alguma forma privilegiado na busca pela fluidificação, para o bem e para o mal, das subjetividades, constituindo zonas de acesso e conectividade. E no entanto, essa busca desliza em uma superfície frágil, quando corre-se o risco dos esforços desembocarem em uma estetização por ela mesma.

Pensar a arte em tempos de pandemia não é um exercício que possa ser reduzido em pontos fundamentais. Assim como o vírus, é uma força que atravessa diversos problemas. O aspecto mais caro das mediações tecnológicas contemporâneas (que agora encontram-se amplificadas) no pensamento de Berardi é que se cada parte de uma relação é reduzida à mera informação, elas mantem-se separadas e a interpretação se reporta somente à noções mínimas e automatizadas. Me parece que em relação à arte um investimento em um fluxo contra fluxo é importante. Para isso seria preciso assumir estratégias verdadeiramente capazes de incorporar espaço para a dúvida, o risco e para as modulações próprias de qualquer relação contagiosa, afetiva, comunicacional (e também interpretativa). Uma arte que nos faça lembrar dessa estranha condição da liberdade, quando o corpo do outro é extensão do nosso próprio corpo.

Imagem: Four body weights, Franz Erhard Walther (1968).

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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