Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

Experiência (quase) infinita

Diante do cenário atual, que levou os museus a fecharem as suas portas e suspenderem as exposições, talvez só nos reste, além da meditação sobre o futuro, revisitar as experiências passadas.

Viajamos de volta ao ano 2015: Estamos no MALBA, museu de arte latino-americano de Buenos Aires. Vamos a visitar a exposição Experiência Infinita que, segundo a informação obtida, está composta de “nove obras de arte ao vivo”. Não sabemos o que esperar. Subimos a escada rolante até o segundo andar e somos recebidos pelo simpático logo da exposição. Vemos o nome dos artistas, mas não há texto.

Entramos na primeira sala. Encontramos um ambiente quase vazio: nele há dois homens, vestidos com macacão branco, pintando as paredes do cubo branco com tinta, também, branca. Na sala há um andaime e, no chão, algumas latas de tinta. Questionamo-nos: “Mas a entrada não era por aqui? Essa sala parece estar em montagem!” Saímos da sala. Logo, voltamos a entrar. Descobrimos que se tratava de uma obra, não do vocabulário da construção, mas do vocabulário artístico: Entre outros acontecimentos, instalação viva dos artistas escandinavos Elmgreen & Dragset coloca em evidencia a relação existente entre tempo e trabalho através de ações ininterruptas. Sentimo-nos tolos, afinal somos pessoas habituadas à arte contemporânea e, ainda assim, caímos na armadilha.

Maio, 09. imagem 1

Rindo de nós mesmos, ingressamos na segunda sala. Estamos sendo vigiados. Nossas ações começam a ser narradas em tempo real como se, de repente, tivéssemos ingressado em uma dimensão distópica. É melhor ter cuidado, pois a narração dos nossos movimentos está sendo projetada de modo ininterrupto na parede do cubo branco. Mas, para a nossa sorte, é apenas arte contemporânea. Trata-se da obra Narrativa instantânea da artista espanhola Dora García.

Maio, 09. imagem 2

Após atravessar os outros espaços-obras, nos dirigimos ao que parece ser a última sala. A sala é amplia e, assim como a primeira, está quase vazia. Porém, nela há uma estrutura circular que delimita uma única saída possível. Trata-se de uma porta giratória humana e não há forma de atravessar-la sem encarar esses corpos alheios. Os corpos que compõem a porta-barreira executam movimentos quase coreográficos. Deve-se ter cuidado para não ser “varrido” pela porta (como acontece com o Chaves na sua visita a Acapulco), pois os corpos-barreira giram constantemente pelo espaço circular. A obra é Porta giratória dos artistas Allora (EUA) & Calzadilla (Cuba).

Maio, 09. imagem 3
*Todas as imagens são propriedade do MALBA.

Atravessamos os corpos e estamos do lado de fora, porém a experiência ainda não terminou. No corredor, um narrador descreve algumas obras de arte a partir do relato de artistas e curadores que nunca as viram: cabe ao espectador utilizar a sua imaginação para visualizar-las. Obras contadas é da artista argentina Judi Werthein.

Maio, 09. imagem 4

Agora nos direcionamos a escada rolante: estamos prontos para ir embora. No caminho encontramos o folheto da exposição, estrategicamente localizado no final da experiência a fim de não estragar nenhuma surpresa. Nele há um texto curatorial, uma planta da exposição e as fichas técnicas das obras. Descobrimos que há uma obra infiltrada no primeiro andar do museu entre as obras da coleção permanente. É claro que não iremos perder essa!

Descemos as escadas até o primeiro andar. Estamos procurando a obra This is propaganda do artista hindu-alemão Tino Sehgal entre as obras de arte latino-americana do século 20. Não a encontramos. De repente, uma das funcionárias do museu, que está ao cuidado da sala, repete em voz alta “THIS IS PROPAGANDA. THIS IS PROPAGANDA”. Quão inocente somos! Procurando a obra! Essa era a obra! Imediatamente a mulher, em tom menos exaustivo, declama a ficha técnica da mesma. This is propaganda, efêmera até repetir-se, trabalha unicamente com a voz humana, a linguagem oral e o movimento para criar encontros.

O material já não importa. O tempo e os processos constroem as obras. O público, inserido dentro das quatro paredes do museu, é parte das obras e, ao mesmo tempo, cúmplice dos artistas na sua execução. Nada tão novo, porém ainda nos surpreende. Afinal, sabemos que os museus ainda são bastante “século 19”. Estamos satisfeitos! Descemos as escadas até o térreo: é hora de ir embora. A experiência foi infinita enquanto durou. A experiência é infinita enquanto os museus mantêm as suas portas abertas, e enquanto há humanos que a executem.

Viajamos de volta ao ano 2020. Já não é possível ter experiências infinitas como essas. Pelo menos não sabemos até quando.

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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