Andressa Rocha Crítica quinzenal

Fora de lugar

Em um governo caracterizado por uma avalanche obstinada de absurdos, não causou surpresa a entrevista concedida pela ex-atriz Regina Duarte, atual responsável pela pasta da Secretaria Especial de Cultura durante a gestão Bolsonaro. Duarte assumiu o cargo deixado por Roberto Alvim, exonerado após a publicação do seu pronunciamento no vídeo de anúncio ao Prêmio Nacional das Artes: na ocasião, Alvim retomou o discurso de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, contando inclusive com a ópera Lohengrin, de Richard Wagner, como trilha sonora. Apesar da demissão, sua performance não destoa da tônica bolsonarista de desprezo à democracia.

É possível afirmar, por conseguinte, que Regina desenvolve uma atuação não muito divergente de seus outros colegas de gestão: sua atuação é pífia e talvez seu único feito memorável, por assim dizer, foi evidenciar sua completa inadequação ao cargo que ocupa ao chamar o relevante artista Ivens Machado de “Ines Machado” em uma publicação em seu instagram, dia 27 de março deste ano. Uma breve pesquisa seria suficiente para evitar o grave erro, mas aparentemente isso não faz parte das diretrizes de governo.

Não por coincidência, tudo parece fora de lugar. A entrevista concedida ao canal CNN Brasil, na última quinta-feira (07/05/2020), reforça as suspeitas. Na ocasião, a Secretária minimizou as torturas e os assassinatos cometidos durante a ditadura militar, assim como as mortes resultantes da pandemia do Covid-19, vírus que o governo federal não se preocupa em controlar e que encontra nos mais pobres suas maiores vítimas. A trilha sonora, assim como no caso de Alvim, também fez-se presente com Duarte cantando Pra Frente, Brasil, marchinha da ditadura composta por Miguel Gustavo para inspirar a seleção brasileira na Copa do Mundo FIFA de 1970, primeira transmissão ao vivo de uma Copa, que marcou a euforia ufanista do período.

A cena orquestrada por Regina, conforme observou-se, foi preparada para enviar as já citadas mensagens. Há alguns anos, talvez fosse inviável pensar que existiriam pessoas defendendo um regime de cerceamento dos direitos humanos, algo que infelizmente não parece tão distante, tendo em vista as constantes ameaças de Bolsonaro à democracia. Não obstante, um dado parece dissonante: duas serigrafias do artista Rubem Valentim, posicionadas no centro da imagem captada em Brasília, convidam à reflexão.

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Rubem Valentim (1922-1991) é um artista que nasce no ano de início do movimento modernista, cuja linguagem e posicionamento político foram fundamentais para o desenvolvimento da arte brasileira. Valentim articula símbolos e emblemas do candomblé em suas telas de linguagem abstrata a partir do final da década de 1950, período historicamente caracterizado pela assimilação de um repertório construtivo no país. No entanto, o artista coloca-se em posição contrária “aos ismos internacionais, cosmopolitas”, buscando a defesa de “uma tomada de consciência cultural da Nação Brasileira, do Povo Brasileiro”.

Havia, dessa maneira, uma preocupação de Valentim em desenvolver um repertório cujo conteúdo fosse necessário à realidade sociocultural brasileira. Em seu Manifesto ainda que tardio, publicado em 1976, o artista também afirma que “a arte é tanto uma alma poética para lutar contra a violência como um exercício de liberdade contra as forças repressivas”. Nada mais necessário nesse contexto perverso do que o trabalho de um artista nordestino que lutou contra discriminação racial e religiosa. De qualquer modo, Valentim merecia mais.

Referência Bibliográfica

PEDROSA, Adriano; OLIVA, Fernando (org.). Rubem Valentim: Construções Afro-Atlânticas.  São Paulo: Museu de Arte de São Paulo, 2018.

 

 

andressa

 

Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

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