Crítica quinzenal Daniela Avellar

OUTRAS GEOMETRIAS

As falas tétricas de Regina Duarte durante a entrevista viralizada nesta última semana estão inscritas em uma imagem composta por alguma dinâmica opositória: de um lado, seu discurso mortificado saído da boca de quem não só é uma atriz famosa, mas por quem agora ocupa um cargo no governo antes pertencido ao bizarro diretor de teatro Roberto Alvim. E tanto faz. Como diria um amigo: ela é um estorvo. Não seria nem adequado qualquer nomeação se valendo da loucura, identificando na hipérbole de um necronegacionismo, na mentira deslavada, algo como delírio ou psicose.

E do outro lado temos a figura do jornalista evocando todo o aparato midiático que aos olhos do bolsonarismo representa um grande mal a ser combatido. O jornalismo, por sua vez, faz escolhas precisas de linguagem ao produzir os acontecimentos que nos rondam, para além de notifica-los ou comunica-los. Não queremos fazer parte da maquinaria, insuflar as ideias colocadas para circular através de “piadas” e trollagens diversas, essa falta de compromisso com o efeito próprio da língua – a força performativa que faz dos enunciados coisas que de fato alteram a realidade. Acabo de ver a seguinte manchete na televisão: “Bolsonaro cancela churrasco no palácio do alvorada neste sábado”. Mas como responder a essa estapafúrdia memeficação da vida?

Seria inapropriado, no entanto, dizer que a imagem da entrevista aqui abordada se assenta somente nessa dinâmica dual, ainda que ela esteja presente. Isso porque no centro dela saltam à vista as geometrias características do engajado artista baiano Rubem Valentim (1922-1991). Fato endossado através da informação de que as pesquisas no Google sobre o nome do artista aumentaram exponencialmente naquele dia. O simbolismo na obra de Valentim se conecta com a iconografia afro-ameríndia-nordestina e com a cultura das religiões de matriz africana, sobretudo a história dos orixás. É no mínimo forte que aqueles trabalhos (doados no período da gestão de Gilberto Gil) estejam ali.

O mecanismo dualista comentado anteriormente envolve uma dependência infernal de um “outro” em relação a um “eu”, com certa conotação persecutória. Mas será que essa linearidade existe? Certamente em outros mundos e pensamentos que não partem a realidade de forma dual essa linha não ressoa. Tem assuntos que à primeira vista demandam uma posição pragmática, é verdade. Mas “saídas” dominantes, tentativas recorrentes e que vem de muito tempo não dão conta, simplesmente. A tela de Rubem Valentim ali presente de forma central, para além dos pedidos de “livramento” que vi nas redes nos últimos dias, mas principalmente, distanciando-se de qualquer desejo salvacionista, é capaz de traçar outros caminhos e posições cujos efeitos, muito mais do que contrapontos ao que está aí, indicam formas de atuação que não se limitam à habitar o outro lado da coisa.

Daniela Avellar

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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