Crítica quinzenal Gabriel Fampa

A APARIÇÃO (a partilha do mistério)

Se temos que testemunhar, somos compelidos a descrever e compartilhar aquilo que vimos acontecer, eventos que se costuraram diante de nossos olhos, fatos em que tivemos ou não participação direta em seu decorrer. Sabemos que a potência do testemunho – a autenticidade da fala – carrega também sua maior fragilidade: a ameaça da inverdade, ou da falta de coesão, vir a penetrar o relato. Quando são os outros que testemunham, cabe a nós aceitarmos ou não a plausibilidade e veracidade do que se diz. Sabemos, entretanto, que essa tarefa não é simples. E hoje, diante de nós, encaramos trabalho mais difícil do que a simples e direta detecção da mentira. Hoje, o relato é um ato dúbio que carrega as potencialidades do gesto e do mistério.

Hoje, assistimos A aparição, filme francês de 2018. Acompanhamos uma jovem cristã de 18 anos do interior da França, Anna, afirmar ter visto em uma de suas incursões solitárias pelo campo uma aparição, diante de seus próprios olhos, de Virgem Maria. A ocorrência eventualmente torna-se de conhecimento público e em pouco tempo o evento e o local específico da aparição atraem centenas de peregrinos à pequena cidade. O Vaticano, atento aos acontecimentos, inicia uma investigação canônica para averiguar a veracidade da ocorrência enquanto Anna passa, assim nos parece, por um processo dúbio de santificação clandestina. O Vaticano demonstra preocupação e resistência a priori ao reconhecimento da autenticidade da ocorrência em questão, enquanto padres próximos de Anna se articulam de forma independente para criação de uma nova igreja fundada na experiência da jovem. Jacques, fotógrafo, jornalista de guerra e nosso personagem central, é contratado para integrar a comissão de investigação do ocorrido e é enviado à pequena cidade ao encontro de Anna.

A aparição - imagem 01

Chega-nos, como questão diante do testemunho, a indagação primeira de como saber se uma pessoa viu algo que alega ter visto. Percebemos com rapidez que essa problemática cruza territórios distintos, toca zonas variadas da epistemologia humana e aponta para uma questão de fé. A fé, aliás, assim como o testemunho, a averiguação científica, a investigação intuitiva, a predisposição da negativa da igreja, o poder de creditar do Vaticano, a religiosidade enquanto instituição, a hegemonia institucional, o fotojornalismo, os desejos da juventude, o consumo de imagens e as autoridades auto intituladas e herdadas se esbarram constantemente em conflito no desenrolar dos eventos em questão no filme. “Como saber se uma pessoa viu algo que alegar ter visto” não se trata aqui de uma simples tensão dicotômica entre fé e ciência, entre relato e prova, mas de um constante embate de interesses e desejos pessoais, coletivos e institucionais que transgridem fronteiras, afetam constantemente uns aos outros e atestam sistematicamente a seus próprios desejos de expansão e centralidade.

Em meio a esse desenrolar multifacetado, há uma questão que se destaca para nós. Ou melhor, uma imagem que se sobressai. Trata-se de uma representação de cunho religioso de Virgem Maria danificada – tendo os olhos deteriorados e marcados de cinzas – que assume certa importância para a experiência de Jacques na trajetória de sua investigação. Um amigo próximo ao jornalista que, como ele, trabalhava com registros em áreas em conflito, havia fotografado esse mesmo artefato antes de falecer em uma situação de embate no oriente médio. Jacques, que conhecia essa fotografia, encontra o objeto na casa de uma das famílias adotivas de Anna. E, ao ser confrontado com esse achado de improvável acaso, entra em conflito com seu próprio ceticismo. Tal improbabilidade de encontro desperta caráter sobrenatural, como se a imagem ali desenhada fosse uma mensagem colocada em seu caminho em meio à investigação, ainda nos primeiros passos, sobre Anna. O retorno dessa imagem ultrapassa, para ele, os limites do razoável e tangencia, parece-nos, a possibilidade de se configurar como sua própria e pessoal aparição. Esta que é especificamente direcionada a ele, de modo que somente nele poderia despertar a incidência do mistério.

A aparição - imagem 02

Por que essa imagem chama a atenção de Jacques? Por que ver nela a potencialidade do mistério? Evidentemente, o ponto de inquietação está no fato de que se trata da recorrência de uma representação da Virgem no momento em que a investigação a respeito de Anna alcança seu ponto de maior complexidade. Mas o que realmente afeta nessa imagem, parece-nos, é o dano que é incorporado na representação de olhos queimados. Paralelamente, nos entornos de Anna, um padre comenta que são os olhos da jovem que lhe dão forças em momentos de adversidade e de crise, remetendo não somente à profundidade e à harmonia de seu olhar, mas a sua própria capacidade de ver. Anna descreve a enunciação da aparição como uma luminosidade harmônica que tomou a forma de uma mulher de trajes simples e véu azul em plena luz do dia. E os fiéis, por sua vez, que viajam até o pequeno vilarejo realizam a peregrinação para ver quem viu, ou melhor, quem foi escolhida a ver.

Em termos de imagem, a diferença fundamental entre a aparição pessoal de Jacques e aquela investigada pelo Vaticano encontra-se na carência de um suporte da segunda. É uma imagem desprovida de moldura; em outras palavras, incompartilhável. É Anna, parece-nos, que assume o papel do suporte; a ela é atribuído naturalmente o papel de ser a partilha do mistério. Essa partilha é feita por meio de seu testemunho e da associação de sua própria imagem, de seus próprios olhos, à devoção cristã.

Parece-nos que nessa gestão múltipla de ocorrências está em cerne a capacidade de interpretação da imagem. E, em nossa própria interpretação sobre os olhos furados, entendemos que, a princípio, o seu machucado remete à perda do poder de ver, poluído pelo desejo descabido – pela cobiça – de ser capaz de olhar além. Nessa percepção dos sinais da imagem, há um senso de penalidade, de derrota, de decepção, de desmerecimento e de pecado. A essa altura, porém, nos chega curiosa a frase dita por um padre próximo a Anna: “o grande pecado do mundo moderno talvez seja a recusa do invisível”. Há, diante desse slogan da moral, uma segunda maneira de interpretar esses olhos queimados que incorpora a interpretação anterior: aceitar o mistério do mundo é abrir mão do ver; é uma questão, essencialmente, de devoção àquilo que está para além do natural, para além da corporeidade dos olhos; de abrir mão, finalmente, simultaneamente de ver além e de ver aquém. O machucado dos olhos se emancipa de sua condição de castigo e assume o status da aceitação da divindade.

Encontrar esse artefato de olhos queimados por meio de Jacques, entretanto, o dosa de um grau mais elevado de ambiguidade. De certa forma, esse objeto concentra em si as manifestações dos interesses contraditórios em torno do uso da imagem enquanto permanece alheio a eles. É em sua passividade que esses olhos machucados adquirem força; não apontam nem para destruição da imagem, nem para sua manipulação privilegiada, mas para a aceitação de uma carência de afirmatividade, de uma ausência de palavras. É em seu silêncio que advêm o conflito do testemunho, este que faz da verdade e da mentira duas formas distintas de construção de uma mesma e inadequada incorporação de sentido subjetivo ao divino.

A aparição - imagem 03

E ainda assim, mediante esse olhar perpétuo, permanece uma questão: o testemunho que não é falso, mas é incorporado da experiência de outro. No dia em que Anna alega ter visto Virgem Maria, dois camponeses dizem ter ouvido o berro assustado de uma jovem advindo do local onde foi vista a aparição. Esse grito entra em contradição com o testemunho feito anteriormente por Anna em que enfatizava a sensação de paz, harmonia e segurança perante a imagem iluminada divina que viu no campo. Na conclusão de A aparição, Jacques descobre que quem viu a aparição da Virgem foi, na verdade, uma amiga íntima de Anna, Mériem, que, com medo anunciado em um grito, fugiu após o ocorrido, construiu sua vida e ergueu uma família longe da prática religiosa. Anna assumiu o ônus da aparição para que Mériem pudesse viver uma vida normal.

Por que, afinal, o relato de Anna narra harmonia se para sua amiga o evento sobrenatural foi assustador? Por que esconder o grito? Por que transmutar o relato da real experiência do mistério? O que poderia ser mais importante do que incorporar e reproduzir, em sua fala, o acontecimento exato do dia da aparição? Cremos que respondemos essas perguntas com o fato de que seu testemunho deveria ser convincente, que deveria arcar com as expectativas e simbologias em torno de como se espera que eventos dessa natureza ocorram. A harmonia entre o evento e os olhos, expresso no ver, sugere a consonância plena, a aceitação do ônus, a extensão e indubitabilidade da vontade divina. Em outras palavras, o suporte deve estar condizente com a imagem que carrega.

Cabe nos perguntarmos, diante dessa complexidade, se é a imagem (aparição em si) o fato divino ou sua aceitação por aquele que a vê, concretizando, dessa forma, o chamado e a partilha da devoção. Anna descreve em seu relato que quando viu o lampejo de luz ao longe, antes mesmo de identificar a forma de uma mulher, sentiu uma convocação. A enunciação da Virgem não é somente uma prova ocular de sua presença, mas um chamado, uma rememoração. O ponto de tensionamento específico desse chamado em A aparição é direcionar-lhe àquela que irá negá-lo, que, por sua vez, irá transferir o ônus a outro. Seria tentador interpretar os olhos queimados como índice dessa rejeição, mas deixaremos essa elaboração, visto sua profundidade, para momento futuro.

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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