Crítica quinzenal Pietro De Biase

TERRA INCOGNITA- ESPELHOS

 

“Nem tudo o que parece valer acima do espelho

 resiste a si próprio refletido no espelho”

Italo Calvino

 

Espelho, espelho meu, o que habita no avesso do eu? Os espelhos são objetos chave na reconfiguração do olhar dentro do espaço doméstico. Possuem um caráter ativo nos processos de interiorização/subjetivação dos habitantes do lar burguês, associado ao conforto e à privacidade. As civilizações antigas acreditavam que o espelho revelava a imagem da alma; na arte da Europa medieval, pensava-se que refletisse castidade, transitoriedade e prazeres mundanos, o que mais tarde ficará sacralizado como vanitas. Desde então, os espelhos ganharam o mundo, adentrando as áreas externas dos edifícios das grandes cidades – vivemos em cidades espelhadas. O que se tornou a obsessão ocidental em ver sua imagem refletida é objeto de um sem número de estudos.

As superfícies espelhadas se plasmam em chaves simbólicas na arte. Pelo mito seminal, Narciso, que ao mirar seu reflexo sobre a água de um lago se apaixonou por sua própria imagem, uma cena que foi recriada por todos, de Caravaggio a Salvador Dalí. Da reflexão narcísica, consagrou-se o espelho da vanitas como alegoria da angústia relacionada à consciência da finitude, por vezes carregando mensagens de moralismo, como no Casal Arnolfini (1434) de Jan van Eyck ou em O Cambista e sua esposa (1514) de Quentin Matsys.

Os deleites narcísicos também irrigaram o pensamento de Lacan, que conceituou o Estádio do Espelho como a experiência primordial do reconhecimento do corpo, a partir da sua relação libidinal com a imagem. Nesse estágio, a produção de si performada por cada indivíduo se complementa ao refletida no espelho. Ao se mostrar etapa formadora da função do Eu, parte integrante do desenvolvimento, onde a criança, diante do espelho, passa de uma noção fragmentária do seu corpo para o reconhecimento de sua unidade. Nas palavras de Melchior-Bonnet,  a criança percebe a diferença entre a imagem refletida e ela própria, e adquire diante de seu reflexo uma nova função de projeção. O espelho é, portanto, o auxiliar da identificação e da autorrepresentação.

O deslumbramento do olhar com superfícies reflexivas obcecou gerações. A Galeria dos Espelhos de Versalhes ou os Palácios Safávidas da Pérsia, incrustados de espelhos, são apenas alguns dos exemplos mais emblemáticos. Espaços pensados para a experiência do majestoso e do absoluto, refletiam a luz solar, que metaforizava o poder do soberano. E por justamente só enxergarem seu próprio poder, dinastias reais caíram na armadilha das superfícies espelhadas

Espelho, espelho meu, o que trazes para além do eu?

No século 20, o espelho foi emancipado da categoria de tema nas representações para se tornar um material e objeto da arte. A superfície especular retoma o campo semântico da psicanálise como forma de alegoria, sobretudo, quando, nas palavras de Lacan que, diante do espelho nos deparamos com a nossa imagem, e um dado momento “o olhar que aparece no espelho começa a não mais olhar para nós mesmos”. A angústia existencial se apresentaria, pois, com mais arrebatamento através do espelho (through the looking glass).

Expoente da Arte Povera, os trabalhos de Michelangelo Pistoletto combinam espelhos reais com pintura ou escultura, incorporando assim o espectador à imagem. Os espelhos são centrais para sua prática, como uma maneira de examinar não apenas o eu, mas o outro, seja ele físico ou simbólico.

Michelangelo Pistoletto, Partitura in Nero, 2015
Michelangelo Pistoletto, Partitura in Nero, 2015

Louise Bourgeois teve uma visão semelhante sobre o poder penetrante do especular. Certa feita, a artista declarou que “O espelho significa a aceitação do eu. Então, eu morava em uma casa sem espelhos, porque não aguentava, não me aceitava. O espelho era um antagonista”. Em suas Cells (Eyes and Mirrors), os muitos espelhos criam uma profusão de reflexos e perspectivas alteradas que perturbam o senso de percepção direta que os olhos parecem propor. Engailoados, os próprios olhos ficam confinados em um espaço que os oferece para exposição a outros olhos – os do espectador.

Tributária da arte experimental, Valeska Soares, no rastro da Alice de Lewis Carroll, atravessou o espelho algumas vezes na criação de obras imersoreflexivas. A instalação Détour (2002) é um exemplo da experimentalidade da prática da artista. Por meio de uma porta giratória que leva o visitante a entrar em uma sala iluminada e ampla onde duas das paredes são cobertas por espelhos; situadas em faces opostas do ambiente, refletem uma à outra e tudo o que entre elas se posicione. Nas demais paredes, imagens fotográficas de um portal cerrado e de seu reflexo sobre o piso são impressas. Segundo Moacyr dos Anjos, a ilusão de reflexo circular urdida pela artista cria um túnel virtual do qual o olhar apreende apenas um segmento . Compreender o todo escapa à captura do olhar, que, inapto, preenche o desconhecido com o sonho.

Valeska Soares, Détour, 2002
Valeska Soares, Détour, 2002

Outra intervenção interessante proposta por Valeska para foi para projeto InSite (2000), realizado no muro entre as cidades fronteiriças de San Diego (EUA) e Tijuana (Mexico). Picturing Paradise consistiu em duas grandes chapas de aço altamente polidas diretamente em uma seção da cerca que separa os dois países, criando a ilusão de uma abertura no muro, exceto apenas que o que foi visto não passava de um reflexo.  Diferente do espelho sonhado por Alice, o espelho de Soares não se dissolveu em brumas.  Em cada superfície espelhada foi inscrito um trecho da história de Valdrada, cidade criada por Italo Calvino. Valdrada possuía uma cidade gêmea espelhada nas águas de um lago. “As duas Valdradas vivem uma para outra, olhando-se nos olhos continuamente, mas sem se amar”. A ambiguidade da matéria reflexiva opera diretamente sobre o espectador que ao se enxergar na superfície polida é, a um só tempo, sujeito e objeto, vítima, carrasco, fracionado entre o que vê e o que sabe.

Os espelhos de Antonio Obá enquanto chassis ocos, chapados com metal opaco, trazem nova camada à superfície especular. A ausência de polidez e o reflexo disperso, sinalizam a fragilidade da construção da imagem nacional. A lona de algodão sem moldura relampeja visceralidade, que atrai signos de memória, violência e apagamento que não se espelham na virtualidade turva do espelho colonial. Na dicção de Cinara Barbosa, o espelho que pouco reflete é o anteparo da visão, um reflexo que não serve à exterioridade, sugerindo a volta para dentro de cada um. – Espelho, espelho meu, por que na violência adoeceu?

Antonio Obá, Ambientes com espelhos, 2017
Antonio Obá, Ambientes com espelhos, 2017

Reconhecida superstição de que quebrar espelhos são sete anos de má sorte. A noção de um espelho fraturado também invoca um universo de inseguranças. Opto por divergir desse dizer. Não importa em quantos cacos um espelho se desfaça, ele sempre refletirá de volta. É a chance de olhar novamente. Um segundo olhar. Mais profundo. Mais consciente.

O desafio da imagem refletida no espelho alarga o espaço mental e proporciona uma unidade que não se dá naturalmente, mas é fruto de contínua construção. O esforço de manutenção da matéria reflexiva se plasma, em último grau, na busca por uma poética que não traia o sentido da imagem. Imagem que mesmerizou o jovem Narciso. Embevecido, se entregou ao entorpecimento fugidio da vanitas. Ao final, o jovem herói transformou-se em flor. Satisfeito com sua metamorfose, pois creu ter burlado a própria morte.

A alegoria narcísica nos lembra das vicissitudes humanas perante a tomada de consciência diante do próprio reflexo no espelho. Consciência que, nas palavras de Alberto Caeiro, “ nos esmaga, com todo o seu mistério e a sua força, de compreendida incompreensão profunda” e nos revolve a memória que nos permite a continuidade da consciência numa eterna dança cósmica.

Espelho, espelho nosso. Tantas histórias, que já não mais posso.

 

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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