Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

A história oficial: as duas (ou as muitas) caras da história

En el país del no me acuerdo
Doy tres pasitos y me pierdo.
Un pasito para allí
No recuerdo si lo di.
Un pasito para allá
¡Ay, que miedo que me da!
Maria Elena Walsh (trecho de canção infantil presente no filme “A história oficial”.

A história oficial é um filme argentino de 1985 dirigido por Luis Puenzo. Com o roteiro escrito durante os anos de ditadura militar, e terminado após a queda desta, a sua filmagem foi realizada durante o primeiro ano do retorno à democracia. Já o relato do filme tem lugar no ano de 1983, ano da caída do regime ditatorial.

No filme, vemos quatro faces da história: os considerados “subversivos” ou “perigosos” por opor-se ao governo militar; os burocratas da classe empresarial que lucram com o regime e o apóiam, sendo uma engrenagem mais, porém fundamental, do sistema repressivo; a classe popular que se levanta em busca da verdade, memória e justiça, reivindicando os desaparecidos. Vemos também o rosto da burguesia que vive dentro da sua própria bolha, onde os acontecimentos extrínsecos passam despercebidos. Esta última será a cara da personagem principal, ainda que não possamos reduzir-la a um mero retrato de uma burguesia cega, pois Alicia (protagonista da história) funciona como metáfora de algo muito maior.

Não assistimos a uma guerra entre dois pólos opostos, como ocorre em alguns “filmes políticos”. Pelo contrário, estamos diante de subjetividades marcadas pelo autoritarismo de um país cuja moral foi levada até o extremo por um poder que não teve limites para impor a sua visão de mundo. A história oficial, ao invés de (re)criar um relato oficial ou unilateral, centra-se em micro-histórias. Porém, um micro que nos permitirá ter a visão de algo com dimensões muito maiores.

Conforme o filme se desenvolve, Alicia, que é professora de história em um colégio e apegada ao tradicional ensino da “história oficial”, irá descobrindo as histórias que estão sendo ocultadas pela primeira. Suas descobertas irão coincidir com o gradual enfraquecimento do regime militar, que está a ponto de cair. Contudo, esse interesse em descobrir outras verdades estará relacionado com um evento que afeta o seu âmbito pessoal-familiar.

Desse modo, o relato apresenta uma contraposição entre a história oficial (controlada pelo estado, redigida nos grandes livros e registros históricos e presente nos atos patrióticos) e as outras histórias (aquelas que estão sendo caladas e as micro-histórias). Nestas últimas encontramos tudo aquilo que o poder se esforça em ocultar. A “história oficial” é apresentada, não só como um apagamento de vozes, mas como a versão escrita pelos assassinos, como argumenta um aluno em uma das cenas do filme.

Podemos vincular essa leitura com a oposição que Walter Benjamin realiza entre a história dos vencedores e a história dos vencidos. A primeira seria a oficial. “Não há nenhum documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie”, afirmou o filósofo em uma das suas frases mais célebres.

No filme, a ditadura será uma espécie de ser onipresente, como uma espécie de big brother. Não veremos o seu rosto (os militares em ação), não escutaremos o seu nome (ditadura), porém ela estará presente em todas as partes e afetará a todos os sujeitos, em diferentes medidas.

Essa onipresença será remarcada pela presença de duas instituições que serão cúmplices do seu poder: o matrimônio e a igreja. O matrimônio será dependente da obediência de Alicia. Já a igreja aparecerá como um lugar para a busca de conselho e orientação. Porém, a partir do momento em que Alicia comece a questionar a história oficial, a resposta dessas instituições que deveriam “acolhê-la” será, respectivamente, “Pare de pensar!”, “Esqueça!” e “Você está perdoada, vá em paz”. O esforço para que o indivíduo, no contexto de um regime repressivo, pare de pensar, ou simplesmente se esqueça, termina evidenciando o ato de pensar e o exercício da memória como atos revolucionários. Não é casual que as avós (na época do filme, as mães) da Plaza de Mayo utilizem a frase “Ni olvido, ni perdón”, algo como “Nem esquecimento, nem perdão”. O ato de não esquecer é valioso, e fundamental para que a barbárie não se repita.

Maio, 23. Imagem
Pensar es un hecho revolucionario. Obra de Marie Orensanz no Parque de la memoria (monumento às vítimas do terrorismo de estado) em Buenos Aires.

O coletivo de mães, hoje avós, da Plaza de Mayo terá um papel fundamental no filme. Não é um fato menor que a cena onde vemos uma manifestação (onde elas aparecem com seus lenços brancos amarrados na cabeça) não seja uma encenação, senão o registro de uma manifestação real. Afinal, no momento da filmagem a ditadura havia caído há apenas um ano e esses movimentos começavam a surgir com força.

Como colocar em palavras, ou imagens, algo que está latente? Como processar ou narrar algo que acabamos de viver e que não sabemos que rumo irá tomar? Nesse sentido, Norma Aleandro, atriz que dá vida a Alicia e ex-exilada durante a ditadura, afirma “a busca pessoal de Alicia é também a busca da minha nação pela verdade sobre nossa história”. No momento da realização do filme, a luta pela verdade e pela memória estava apenas começando.

Vemos, então, como o filme opta por não dar um final conclusivo ou uma espécie de resposta premonitória sobre o futuro. Não sabemos o que irá acontecer, porém fica claro que algo novo está emergindo. Somente o tempo e a história, talvez não a oficial, mas aquela que nasce do exercício da memória dos cidadãos, nos dará a resposta.

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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