Andressa Rocha Crítica quinzenal

Habitar, apenas

penso que, como disse Jean Améry sobre a pátria,

uma casa é aquilo que menos se necessita

quanto mais se tem¹

 

Em uma rápida busca no dicionário, uma das definições de casa é “construção destinada à moradia”. Nesse sentido, uma casa só existe na medida em que ela é extensão de nossa própria existência. É possível identificar uma ideia de casa à priori, mas ela apenas se concretiza a partir da presença de um ou mais corpos que a vivenciem e, por conseguinte, garantam que determinada construção arquitetônica seja preenchida de sentido. A afetividade das redes de sociabilidade pode influenciar na percepção de uma casa como aconchegante ou fria, por exemplo. A casa também atua como instância que se pensa ou não se quer transitória e, ao mesmo tempo, delimita o dentro e o fora, o interior e o exterior. Trata-se de um espaço físico que nos acolhe e, num campo de possibilidades, apresenta-se como uma “membrana entre o corpo e a noite/ um filtro para as formas do mundo/ anteparo contra os golpes do dia, onde as vigas/ se põem a cantar”².

A casa, portanto, pode ser lida enquanto dispositivo poético, explorando seus limites e também seus silêncios a partir do sentido de habitar. Não obstante, a experiência de vida da quarentena nos mostra que a não opção de sair pode constituir uma relação angustiante, tendo em vista que o nosso canto do mundo, para o qual o nosso corpo deseja retornar todas as noites, tornou-se o único lugar possível para estar no mundo. O que fazer para vivenciar o estar em casa – em uma temporalidade dilatada – de modo não sufocante? Na obra Femme Maison (1946-1947), a artista Louise Bourgeois apresenta a arquitetura como peso. Casa como cabeça que aprisiona o corpo e, ainda assim, se faz corpo também. Casa que por muitas vezes desloca a subjetividade do ser mulher, que mantem-se firme e transborda, apesar de tudo.

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Louise Bourgeois. Femme Maison, 1946-1947.

Mais do que encarar a casa como um enclausuramento durante esse contexto marcado pela incerteza, talvez uma saída, tal como o artista e arquiteto Friedensreich  Hundertwasser propõe, seja vê-la como um desdobramento de nós mesmos. Em sua Teoria das Cinco Peles, desenvolvida em 1972, Hundertwasser afirma que a primeira pele seria a nossa epiderme, a segunda seria a roupa, a terceira seria a casa, a quarta seria a nossa identidade (compreendida a partir das dinâmicas sociais) e, por fim, a quinta seria a pele planetária, a Terra. Tal formulação possibilita experimentar a casa também como corpo, uma espécie de topografia de nós mesmos, assim como observada na obra de Bourgeois. Que os cantos de nossas casas sejam lugares confortáveis para que possamos fabular outros possíveis.

Referências Bibliográficas

¹MARQUES, Ana Martins; JORGE, Eduardo. Como se fosse a casa (uma correspondência), p.42. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017.

²MARQUES, Ana Martins; JORGE, Eduardo. Como se fosse a casa (uma correspondência), p.11. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

RESTANY, Pierre. The Power of Art, Hundertwasser – The Painter-King with the five skins, Cologne, pp. 10-11, 1998.

andressa

Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

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