Crítica quinzenal Daniela Avellar

ACORDO DE EMERGÊNCIA

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acordo de Emergência[1] (2020), de Pedro Gallego, é um trabalho criado para, mas principalmente a partir, do edital de artes visuais Arte como respiro proposto pelo Itaú Cultural diante desta pandemia. O vídeo é composto por uma colagem de imagens em movimento que partem de conteúdo midiáticos bem conhecidos e diversos. Nele encontramos desde imagens atuais, manifestações de grupos bolsonaristas, discurso da ex secretária de cultura, tutorial de feitura de máscaras de proteção customizadas, vídeo de gatinho, até trechos do filme Titanic, algum programa do Faustão, entre outros. No som é possível ouvir uma versão vaporwave da notória My heart will go on de Celine Dion e uma canção radiofônica da cantora Adele.

Mas principalmente, talvez a mais latente camada de acordo de Emergência sejam as frases geradas a partir do texto do tal edital. Trechos como “A iniciativa receberá o valor intelectual para gerar conteúdo exclusivo de divulgação referente à pandemia. a produção fornecida Será feita sob a perspectiva deste momento de Emergência, por isso a parte que fomenta não contribui com necessidades maiores do lado menor” ou “Vale lembrar que contribuir não forma vínculo. / Vale lembrar que A finalidade da sua vocação é inspirar o poder criativo nas pessoas” saltam à tela em um movimento que reproduz um gesto de digitação, junto a uma janela de busca indicando os termos e um retângulo que apresenta o edital em si, no “original”. Pedro Gallego parte de um movimento de apropriação e se vale de estratégias conhecidas das chamadas escritas não criativas. O artista criou uma lista com as palavras presentes na chamada do Itaú, criando um vocabulário restrito que funciona como algum limite para a escrita que viria a seguir. Através deste contrainte, Pedro produz um novo texto, embora em alguma medida seja possível questionar se essa narrativa não estaria presente de forma subjacente no edital.

São numerosas e variáveis as críticas construídas recentemente à tônica não só do edital comentado, como outros. A demanda estabelecida por eles não é exatamente nova, mas o momento que se impõe nos recoloca condições e aprofunda precarizações por tudo aquilo que concatenamos enquanto uma pandemia. O tom do edital citado acaba reduzindo a suposta tentativa de “ajuda” a uma encomenda. Algo deve ser produzido e segundo um recorte curatorial preciso que se vale da imposição dura mas necessária de um isolamento – situação que enfrentamos com uma sensação de imprevisibilidade nunca antes experimentada. Isso sem contar os problemas específicos locais quanto à precariedade de pessoas que trabalham com arte.

O que também está em jogo neste tipo de demanda e relações de troca, assim como nas dinâmicas da pandemia de uma forma geral, é um certo imperativo de produtividade. Por outro lado, me parece questionável apostarmos na criação de um outro imperativo que solicita a não participação nas iniciativas que agora surgem. Fazê-lo seria, talvez, não considerar as contingências especificas, ou os contextos geográficos, históricos e materiais envolvidos quando alguém fala, pensa ou produz. Quem pode parar? Quem pode verdadeiramente abrir mão?

Diante de meus questionamentos e prudências, confesso ter sentido vontade de ver algum trabalho que mobilizasse a linguagem desses editais se voltando “contra” eles. Encontrei acordo de Emergência no instagram através do compartilhamento de alguns amigos. Um trabalho alegadamente crítico que carrega consigo a urgência das respostas que experimentamos e tentamos criar frente aos muitos problemas recolocados diante da pandemia. Em um movimento entre a comicidade e a criticidade o vídeo apresenta colagens feitas com imagens e textos existentes previamente, cuja mistura e produção de algo novo são ao mesmo tempo um desvelamento de discursos implícitos que jazem por baixo das superfícies. acordo de Emergência é capaz de mobilizar uma suspensão de sentido característica do gesto irônico, quando as palavras se relacionam em outro plano que não um coextensivo ao real. É certo que a dissociação efetuada pela ironia cria espaço linguístico por invariavelmente evocar multiplicidades de significado e suspender temporariamente o valor semântico do significante. Resta saber se ela pode, igualmente, criar consistentes espaços de respiro, ainda que pareça impossível.

[1]https://www.instagram.com/tv/CAbL53jHNJp/?utm_source=ig_web_copy_link

 

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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