Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

A cavilação das imagens

A disciplina da história da arte, com suas raízes, estruturas e modelo profundamente europeus, é o aparato mais poderoso e duradouro do imperialismo e da colonização.

(Adriano Pedrosa para o catálogo de Histórias Afro-Atlânticas)

Nenhuma imagem que compõe a história da arte é inocente. Nenhuma imagem, em si, pode ser-lo.

Diante disto, há a necessidade de colocar-las em contexto e de sermos críticos ao enfrentar-las. Comecemos, então, com uma pergunta: Em que medida a arte, como instrumento da civilização visual européia, contribuiu para a estigmatização e desumanização violenta dxs indivíduxs negrxs?

A resposta, certamente, será encontrada nas próprias imagens que a compõem. Olhemos, por exemplo, para um “clássico” da história da arte brasileira: Os dois touros (1723-30), tapeçaria da série Pequenas Índias, realizada pela Manufatura de Gobelins a partir de apropriações de trabalhos de Albert Eckhout e Frans Post.

Os dois touros, da série Pequenas Índias, 1723-30. Manufatura de Gobelins (Paris, França)
A série apresenta uma visão exótica do Brasil colonial, com ênfase na fauna e na flora. Em Os dois touros, presenciamos um cenário estruturado em três planos. No primeiro, abundam diferentes espécies de flora e fauna, incluindo os dois touros que dão nome à tapeçaria. No segundo, emergem as figuras de dois escravos carregando uma liteira, entre árvores e animais. No último, uma paisagem distante compõe o fundo.

O que podemos ler dessa imagem onde todos os seres vivos parecem conviver em um estado natural aparentemente harmonioso? O que há do outro lado dessa espécie de oásis tropical?

Do outro lado, encontramos o homem branco europeu: o detentor do olhar. O caráter fantasioso da representação se evidência quando recordamos que a peça é uma transcrição do olhar de outro(s), ou seja, um imaginário criado a partir de outros imaginários. 

Coloquemos atenção na ação dos dois personagens: eles carregam uma liteira, realizando um trabalho forçoso como se fosse um ato “natural”.  A tapeçaria nos apresenta uma imagem dócil e inofensiva do trabalho escravo, como parte da natureza e do cotidiano nas Américas. Porém, as marcas do colonialismo e da escravidão estão implícitas na obra, e a liteira é apenas um exemplo: “As liteiras representavam um perverso meio de transporte e reafirmavam a hierarquia existente no Brasil da escravidão.” [i]

Não podemos olhar para essa imagem, idealizada e petrificada, apenas como a representação de uma paisagem pitoresca. Nela os dois touros e os dois indivíduos escravizados estão representados na mesma condição de “animal de carga”, condição que é reforçada pela ausência de traços individuais na representação das figuras. Ao desumanizar os personagens negros, igualando-os à fauna e à flora local, exótica e natural, os detentores do olhar buscarão justificar e naturalizar a escravidão.

Que impacto essa civilização visual tem sobre a nossa contemporaneidade? Como nos relacionamos com essas imagens hoje? Como desconstruir narrativas e imaginários constituídos e reafirmados durante séculos de história da arte e que atravessaram oceanos?

Tenhamos mais cuidado ao enfrentar-nos às imagens… Continuaremos analisando na próxima publicação.


[i] catálogo de Histórias Afro-Atlânticas (MASP)

Imagem de fundo: Obra do artista Ibrahim Mahama. Créditos da imagem: worldredeye.com


Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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