Crítica quinzenal Daniela Avellar

LÁ, MAS AINDA AQUI

lá mas ainda aqui img

Diante da pandemia e as condições de ir e vir que são recolocadas por ela, com todas as suas nuances, a demanda por produção de imagem ganha uma notória acelerada. Figuras circulam em determinados canais de comunicação de forma incessante. Via ecrã podemos ter encontros mais próximos ou menos próximos, mas certamente somos impelidos a ver algo, muita coisa. Estamos vendo o tempo todo, nos defrontando com esta produtividade em um regime composto por telas e imagens.

Não seria mesmo prudente neste momento adormecer os olhos. Além do mundo estar tomado por uma questão de ordem sanitária e viral, um clima de revolta contamina diferentes partes do globo e manifestações antirracistas acontecem em alguns países, apontando forças políticas importantes. E sim, é certo que aqui no Brasil a decisão sobre ir ou não às ruas envolve algumas camadas complexas. Quem estiver impedido eticamente de frequentar a manifestação encontra facilmente modos de acompanhá-la pelas mídias, seja a dominante e seus meios mais conhecidos, sejam os recursos mais alternativos e independentes.

Contudo, há de se considerar que os canais de televisão instrumentalizam os protestos de acordo com os seus interesses do momento, como outrora já destinaram seus esforços para deslegitimar insatisfações anti-sistêmicas quando o povo tomava as ruas. É preferível a busca por e o acesso à lives de frequentadores dos atos que transmitem as imagens em tempo real, até porque estas transmissões funcionam como alguma medida de controle e segurança frente à tétrica violência e o abuso comumente praticados pela polícia.

Judith Butler em Corpos em aliança e a política das ruas (2018) escreve sobre como o que corpos fazem nas ruas enquanto se manifestam seria fundamentalmente ligado ao que os dispositivos de comunicação fazem quando relatam o que está acontecendo nas ruas. Aqui eu acrescentaria uma prudência, entendendo que estas tecnologias mais autorizadas de comunicação, no sentido de que elas tem um alcance muito grande e contam com um robusto aparato que as sustentam em todas as instâncias, não apenas relatam o acontecimento como, ao fazê-lo, acabam por produzir esses eventos. Ou seja, a imagem imediata da qual e do modo como esses meios são capazes coloca a habilidade dos dispositivos em jogo de fabricar os acontecimentos e atuar em relação a eles no sentido de intervenção, interpretação e filtragem.

Não estamos “apenas” vendo. A forma como essas ocorrências são registradas e formuladas por imagens veiculadas excede o domínio cognitivo. Butler diz que a mídia seria mais parte da cena em ação do que algo que “somente” reporta a cena. Dispositivos são capazes de estender as imagens das manifestações de forma visual e sonora, excedendo sua instanciação local. E segundo a autora, pelo fato da edição, o espectador acaba por não saber quais cenas permanecem fora do quadro. E certamente há muitas imagens que os enquadramentos não comportam, muitos acontecimentos. As manifestações que andamos acompanhando (ou “a cena”) dependem desta mediação dos dispositivos comunicacionais para ser o que são.

E dizer isso não consiste simplesmente em uma crítica às tendências estratégicas da grande mídia e suas instrumentalizações. Os modos de exibição e transmissão minoritários, ainda que praticantes de um outro modelo de produção de imagem, assentado em outros princípios, também participam da operação de dilatação dessas imagens para fora delas mesmas e sua condição alegadamente local, chegando aos olhos do outro e permitindo uma sensação de algum acesso direto à situação, por meio de estímulos visuais e auditivos.

Há uma dinâmica complexa entre a localidade das imagens produzidas a partir das manifestações, à medida que ganham escalabilidade global quando veiculadas e com isso podemos esperar que elas sejam propulsoras de uma pressão e revolta espalhadas pelo globo, e quando essa disposição se vê fora de si. Propiciamente a dinâmica presente revela como a condição local não está dada. Nenhum espaço está. O espaço político, ou o espaço público de aparecimento, como teorizado por Hannah Arendt, é altamente transponível.

A leitura a contrapelo da autora feita por Judith Butler coloca como corpos em alianças nas ruas são capazes de constituir localização e faltaria à Arendt uma consideração sobre a atuação do poder em termos de possíveis exclusões ou diferentes posicionamentos em relação a corpos aparecendo em e constituindo espaços de aparecimento. Como determinados corpos aparecem? Quais são as condições para alguns corpos poderem aparecer? Há vidas que, como sabemos, são subjugadas e não são consideradas dignas de existência, passíveis de luto. São como corpos que não importam. Essa desconsideração é base estrutural de um mundo que não pode mais seguir existindo, não desta maneira.

As imagens das últimas manifestações podem ser olhadas por nós, suas figuras nos devolvem alguma experiência da ocorrência e fazem com que sujeitos se tornem visuais e vocais através das mãos de quem documenta e do olhar que as testemunha. Imagens que são ao mesmo tempo lá e aqui. De forma similar, é possível dizer que nossos corpos são constituídos por localizações e perspectivas incapazes de serem plenamente habitadas. Se alguém ouve a minha voz, nunca será do mesmo modo que a ouço. Se alguém encara minha imagem de modo frontal, será de um jeito que nunca me é devolvido. O corpo que não está na própria casa entrega de modo fundamental alguma sociabilidade para além de nós a qual estamos enredados. Que é lá, mas ainda aqui. Alguma interdependência, e sobre tudo resistência, globais, se fazem necessárias se quisermos persistir.

 

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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