Crítica quinzenal Gabriel Fampa

INTERVALO

A história do cinema, parece-nos, é uma história de intervalos. Nos primórdios das projeções, intervalos eram necessários para que projecionistas trocassem os rolos de filme. Com o passar do tempo, as pausas adquiriram novas implicações: tornaram-se modos de estimular uma segunda rodada de compras de pipoca e bebidas e gerar renda extra aos cinemas. E conforme declinaram em popularidade, dos anos 1970 para cá, essas suspensões temporárias da narrativa sobreviveram ainda um período nos épicos do cinema*. Umas pausa para ir ao banheiro em um filme de três horas de duração? É sempre bem vinda.

Hoje, talvez assistimos mais filmes pelo computador e pelo celular do que nas salas de cinema. Quantas pausas fazemos por filme, quantas vezes damos stop no player para ir ao banheiro, falar ao telefone, conferir mensagens pessoais nas redes sociais, fazer um lanche ou distrair-nos com outras coisas para recuperar a atenção? Se tratamos das séries, falamos de intervalos entre cada capítulo, entre cada temporada; hiatos que fazem crescer o desejo de saber o que acontece no próximo episódio. Quando o filme acaba em um cliff hanger, é pior ainda. O que acontece depois do final? Conseguiremos esperar sem que a curiosidade parta-nos a alma? Ou esqueceremos do filme assim que sairmos da sala de cinema e aquele final aberto será eternamente inacabado e imemorado?

Intervalos podem, assim, ser tempos de confabulação, de imaginação. O que vai acontecer, quando essa brecha acabar? Como a história termina? Como a segunda parte começa? Para onde vamos depois de ficarmos suspensos no tempo?

Atentemos: nós também, em nossa coluna, faremos um intervalo. Como a necessidade de trocar rolos de projeção, será preciso realizarmos uma breve pausa devido a implicações que a quarentena que vivemos teve sobre a logística da elaboração das críticas. E como no cinema, essa pausa nos servirá, escapando sua caretice inicial, para imaginar. Quais novos filmes abordaremos em nossas colunas? Poderíamos, aproveitando esse lapso, arriscar temas novos no retorno da crítica? Para a volta, além das análises dos filmes selecionados, desejo escrever sobre as seguintes questões: começar a ver um filme do meio; assistir um trailer; ouvir um spoiler; aprofundar-me nas implicações de uma pausa no filme. Será que esses temas vão se encaixar bem em nossa coluna, atestarão os valores de nossa crítica? Descobriremos.

Intervalo - imagem 01

 

*Intervalo do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço: https://www.youtube.com/watch?v=LAz0uNKw8QI

 

FAMPA

 

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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