Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

O espaço público e a memória em disputa

A recente derrubada da estátua de bronze de Edward Colston por manifestantes em Bristol, Inglaterra, tem gerado inúmeras discussões sobre a retirada de monumentos coloniais e racistas do espaço público em diversos países.

Irei comentar, brevemente, dois casos de deslocamento de monumentos para que possamos refletir sobre a disputa pela memória que, neste caso, é também uma disputa pelo espaço público.

  1. Racista afogado no rio.

Edward Colston (1636-1721) foi um traficante de escravos inglês, responsável pelo envio de milhares de africanxs à escravidão na América do Norte e no Caribe. Sua estátua de bronze foi erigida em Bristol, Inglaterra, no ano 1895.

Recentemente, mais de 11 mil assinaturas já haviam sido coletadas por parte da população solicitando a retirada da estátua. Como sabemos, em muitos casos, o abaixo-assinado não funciona.

Foi então que, em um contexto de protestos anti-racistas relacionados ao assassinato de George Floyd e ao movimento Black Lives Matter, no dia 7 de junho manifestantes removeram a estátua de Colston do pedestal e a jogaram no rio. O ato gerou diversas reações, entre repúdios e elogios, além de desencadear uma discussão –necessária- sobre os símbolos que a história oficial decide edificar e conservar no espaço público.

A partir desse episódio, diversas questões são levantadas: Para que servem os monumentos públicos? Deve a população decidir sobre eles? Qual o uso social desse patrimônio?

Grande parte dos que repudiaram o ato-protesto defendem que, apesar da estátua representar um racista-escravocrata, é um patrimônio público com valor histórico e de memória. Alguns defendem, inclusive, um valor artístico. Talvez, neste caso, um lugar de consenso seria a retirada desse símbolo do espaço público e a sua transferência a um museu onde ele possa ser devidamente – e criticamente- contextualizado. Porém, ao permanecer erigido no espaço público ele continua cumprindo a sua função de homenagem heróica e comemorativa.

Em todo caso, porque a estátua não foi transferida a um museu se a população já havia manifestado o seu desejo de remoção? Devemos seguir mantendo racistas em pedestais?

  1. Disputa de imagens, disputa de governos.

Em junho de 2013, durante o seu segundo mandato presidencial, Cristina Kirchner ordenou a retirada do monumento a Cristovão Colombo que se encontrava adjacente à Casa Rosada. Em julho de 2015, seria inaugurado em seu lugar o monumento à Juana Azurduy, construído através de uma doação realizada por Evo Morales.

A retirada do monumento a Cristovão Colombo, realizado em mármore de carrara, gerou controvérsias e insatisfação por parte de um setor –elitista- da sociedade portenha. Alguns, inclusive, estavam irritados com o fato de Juana Azurduy ser “boliviana” (ainda que a Bolívia, como país, não existia na época em que Azurduy lutou).  Mas… Ué? Levantar monumento pra estrangeiro europeu pode, mas pra latino-americana não pode?

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Estátua de Colombo, que é parte do monumento. Fonte: wikimedia.org

A polêmica não termina por aí… Em 2017, durante a presidência de Mauricio Macri, o monumento a Juana Azurduy foi retirado das adjacências da Casa Rosada. A justificativa utilizada para a sua remoção foi a da realização de obras públicas e expansão do metrobus (espécie de BRT). Assim sendo, dito monumento foi transferido e fixado em frente ao Centro Cultural Kirchner.

Quanto a Cristovão Colombo… Esse não foi totalmente eliminado. Encontra-se conservado e aguardando um novo lugar, também, no espaço público.

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Monumento a Juana Azurduy sendo transladado. Fonte: lavoz.com.ar

Monumentos “são instrumentos políticos, manipulados e conservados por quem detém o poder de produção e circulação imagética com o esforço de impor ao futuro determinada narrativa visual.” O que vemos, neste caso, é uma disputa pela narrativa entre dois pólos políticos opostos. A população não ocupa um lugar ativo nas decisões sobre a produção e a circulação dessas imagens, apenas assiste.

Contudo, podemos ressaltar a força simbólica que há por trás desse vai-e-vem de monumentos. Primeiro, o gesto simbólico de substituição da figura européia e colonial pela figura latino-americana e libertadora. Segundo, o gesto simbólico e violento de “devolução” do monumento, que simboliza a liderança indígena na luta independentista, ao assentar-lo em frente ao Centro Cultural Kirchner. Um gesto que parece enunciar: “Tome aí o que te pertence…”

  1. Reflexões finais.

Quais imagens nós queremos conservar? Quais figuras queremos colocar em pedestais? O que queremos ver quando transitamos o espaço público?

Recentemente, enquanto lia as notícias, vi a seguinte frase pronunciada por um historiador: “Destruir uma estátua não resolve, é preciso discutir a memória”. Não estamos discutindo a memória quando removemos a estátua de um racista do espaço público? Por acaso o gesto de derrubada da imagem, não foi um disparador para que discutamos memória, símbolos e revisionismo histórico?

Se bem a retirada e transferência da estátua a um museu seria uma opção válida -e mais consensual-, nem de longe produziria o impacto simbólico que a sua remoção por parte dos manifestantes produziu.

Não há algo de performático nesse gesto? Além de discutir, não estamos também produzindo memória ao levar esse ato a cabo? Podemos construir memória a partir dos registros desse acontecimento e que, então, ele passe a ser parte da história?

Talvez, o próprio vídeo dos manifestantes arrastando a figura de Edward Colston pelas ruas de Bristol e atirando-o ao rio poderia ser exibido em uma sala de museu.

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Estátua de Edward Colston sendo atirada ao rio. Fonte: picture-alliance/empics/B. Birchall

É certo que derrubar todas as estátuas e monumentos, talvez, não seja a solução final. Mas que a queda de Edward Colston em Bristol, além de simbólica, abriu espaço para uma discussão e revisão a nível internacional é algo que não podemos negar. Nesse sentido, talvez possamos afirmar que ela foi produtiva.

Como afirma Thiago Fernandes em seu recente artigo, “A violência contra as imagens testemunhada em diferentes manifestações políticas tem como alvo não a arte e o patrimônio em si, mas as instituições, os poderes que os monumentos representam.”

Para aqueles que estavam preocupados com a saúde de Edward Colston: ele já foi retirado do rio e está sob o cuidado de restauradores. A estátua será transferida a um museu local, porém os grafites que ela recebeu na manifestação não serão removidos, e sim conservados. Uma nova memória foi engendrada. Uma nova história já começa a ser escrita.

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Edward Colston inteiro e com saúde. Fonte: bbc.com Jon Kent/Bristol Live

 


Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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