Andressa Rocha Crítica quinzenal

A permanência das estruturas – Parte II

          1. O Plenum se precipita pelas brechas do mundo como conhecemos. A pretitude é uma brecha. Uma brecha é um portal e todo portal depende de um campo de força. Se a modernidade é um regime de constrição telepática, a performance preta (criadora de portais e campos de força) é uma rebelião contra esse limite¹.

 

Conforme observou-se na primeira parte, a racialidade é entendida enquanto ferramenta que possibilita o projeto de  modernidade, atuando em consonância com as discursividades desenvolvidas a partir de seus pilares ontoepistemológicos. Tal como a Dra Denise Ferreira da Silva afirma, “a racialidade circunscreveu aos corpos e espaços brancos/europeus os limites do ‘desenvolvimento’ ao produzir o corpo racial como significante das limitações mentais (morais e intelectuais)”.

A ação Guarda-volumes (2020), do artista Gilson Plano, insere-se nesse contexto ao evidenciar como o significante racial atua no assujeitamento dos sujeitos: assim como Paulo Nazareth, Gilson utiliza seu corpo como um lugar de memória. A ação consiste no ato do artista deitar-se sobre 365 ovos, os quais caracterizam um dispositivo de uma duração outra. Partindo de uma experiência pessoal de racismo cotidiano, Gilson investiga a densidade do corpo negro e como sobreviver todos os dias do ano através de uma chave de leitura que o encerra como corpo suspeito em quaisquer circunstâncias.

gilsonplano
Gilson Plano. Ação Guarda-volumes, 2020

Talvez seja possível afirmar que uma relação central que existe na sua obra é entre o corpo e a história, e desse modo, com as distintas formas de violência ligadas à escravidão que continuam sendo exercidas, produto de longos processos colonizadores que se atualizam. De acordo com Grada Kilomba, “a experiência do racismo não é um acontecimento momentâneo e pontual, é uma experiência contínua que atravessa a biografia do indivíduo, uma experiência que envolve uma memória histórica de opressão racial, escravização e colonização”.

Por conseguinte, o artista posiciona seu corpo como uma espécie de peso sobre uma cama de ovos. O ovo como metáfora da vida ou do alimento apresenta uma casca que o protege, mas ainda mantém certa fragilidade. Trata-se de uma afirmação daquilo que virá a ser a partir da experiência com o outro, do encontro. Quebrar-se, dado inevitável durante a proposição que se coloca, revela a impossibilidade de vida sem violência que perpassa o estar nesse mundo de pessoas racializadas. Resta pensar a configuração de outros mundos, nos quais existam a possibilidade de existir e pensar outramente.

 

 

Referências Bibliográficas

¹MATIUZZI, Musa Michelle; MOMBAÇA, Jota. Carta à leitora preta do fim dos tempos, p.17. In: SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019.

 

KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação – Episódios do racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019, 1ed.

 

SILVA, Denise Ferreira da. Dívida Impagável: Lendo Cenas de Valor Contra a Flecha do Tempo, p.167. In: SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019.

 

andressa

 

Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

 

 

 

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