Crítica quinzenal Daniela Avellar

POSSÍVEIS ACÚSTICAS DE RESISTÊNCIA

rubber coated steel

Em 15 de maio de 2014 na Cisjordânia os adolescentes palestinos Nadeem Nawara, de dezessete anos, e Mohamad Abu Daher, de dezesseis, foram baleados e mortos por soldados do exército de Israel durante um protesto no dia em que é relembrada a Nakba, processo que em 1948 abre um ciclo de opressão em relação ao povo palestino, forçadamente deslocado de seu território. A organização de direitos humanos Defense for Children Internacional solicitou que o acontecido fosse investigado pela Forensic Architecture, um instituto de pesquisa em arquitetura avançada da Goldsmiths College, de Londres. O trabalho foi feito em colaboração com o artista Lawrence Abu Hamdan, quem realizou uma análise sonora detalhada dos arquivos de áudio que gravaram os tiros, para que fosse possível compreender de que forma projéteis letais disparados soaram como balas de borracha. O uso de munição nesses disparos, proibido, é negado pelo exército, quem alega ter se utilizado apenas do que é permitido por lei, com o intuito de dispersar a manifestação.

Rubber Coated Steel[1] (2016) é um trabalho de Abu Hamdan que revisita sua atuação na investigação do assassinato dos jovens palestinos, criando uma expansão do que fora produzido enquanto evidência, sendo reatualizado em um espaço expositivo, onde o espectador pode atuar enquanto testemunha. O vídeo contém algumas imagens, envolvendo os espectrogramas gerados a partir dos arquivos de áudio analisados, fundamentais para a análise forense. Os gráficos demonstram frequências sonoras de diferentes disparos. Há uma diferença sutil entre os tiros que assassinaram Nadeem e Mohamad e outros realizados no mesmo dia. Uma diferença cuja frequência é difícil de ser percebida por uma escuta. Essa sutileza denota o uso de algum silenciador ou adaptador para que os projéteis letais soassem próximos ao efeito de uma bala de borracha. Em uma das imagens fotográficas produzidas sobre o ocorrido é possível visualizar uma bala de borracha no ar. Uma munição não pode ser captada por imagem por conta de sua velocidade. As investigações apontam para o fato de que o exército de Israel usou um adaptador capaz de acoplar uma munição à outra bala. Ou seja, a legitimidade da bala de borracha enquanto instrumento de dispersão acaba por facilitar esse tipo de adulteração.

Junto às imagens desprovidas de maiores camadas sonoras (no sentido da produção de ruídos vibratórios, ainda que sejam todas elas referentes a um explícito interesse na dimensão da escuta e do que ressoa), Rubber Coated Steel apresenta um cena de julgamento do caso em forma textual e silenciosa. O diálogo entre acusação, defesa e juiz reside menos em falar em nome daqueles que não podem mais argumentar ou expressar (serem ouvidos), e mais em colocar como dimensão pública (ainda que em ambiente minimamente circunscrito, já que se trata de uma obra de arte) quais são as condições envolvidas no silenciamento desses jovens. Não seria, portanto, uma questão de tornar visível uma comunidade marginalizada por um poder abusivo, mas de colocar como questão as estruturas de poder que estabelecem o direito à voz de certos grupos ou sujeitos em detrimento de outros, que desprovidos da participação em um espaço de aparição, ou o espaço político, são impedidos de uma produção de enunciados passíveis de ser escutados e legitimados. Pelo contrário, o que há enredado ou codificado na sutil diferença de frequências entre o disparo de uma bala de borracha que já em si exerce uma violência, e uma disparo letal realizado pelo uso de um adaptador é o som de uma violência institucionalizada que sistematicamente protege alguns corpos para deixar outros morrerem.

Sendo assim, o público quando em contato com Rubber Coated Steel se vê frente a um trabalho eminentemente sonoro, mas que apresenta a questão acústica menos relacionada a objetos específicos e mais concatenando uma série de estruturas subjacentes enquanto um agregado que pode ser ouvido e percebido de forma sensível. A agência diagramática do trabalho rapidamente evoca as questões: pode a escuta ser tomada como ferramenta para a ação? Seria possível com ela algo mais do que ouvidos que presenciam, tornando-se dispositivos que operam em funcionamento direto com práticas emancipatórias e de enfrentamento em relação a sistemas de dominação? É certo que há ritmos e ressonâncias envolvidos tanto na produção de uma escuta quanto na tentativa de ser fazer escutar. Uma arte sonora que mobiliza entre outras coisas uma condição atroz de silenciamento pode ser capaz de convocar a necessidade de uma audição ativa, aquela que perscruta as zonas mais recônditas, voltando-se muitas vezes às áreas marginalizadas do pensamento (e porque não as geográficas, sociais?). O vídeo de Lawrence Abu Hamdan remonta um regime específico de violência e coloca o espectador como participante ativo deste julgamento, demandando a construção de um ouvinte ético diante de evidencias tão escancaradas. Esta posição não está dada, certamente. Mas a linha disparada por Rubber Coated Steel desenha a escuta como uma importante condutora na criação de possíveis acústicas de resistência.

 

[1] https://www.youtube.com/watch?v=lFIvUV5vmMU

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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