Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

A cavilação das imagens (pt. 2)

Hoje retomamos uma discussão iniciada em um artigo anterior...

Pequeno senhor que eu amo (Petit maître que j’aime), 1840, é uma pintura a óleo do artista francês Julien Vallou de Villeneuve (1795-1866). A pintura representa dois personagens, um homem branco e uma mulher negra, em uma cena de aparente tom romântico. Porém, uma leitura mais minuciosa poderia revelar as intenções por trás do quadro.

Julho, 4, Foto-texto

Quais são as particularidades dessa cena “romântica”? A primeira é a disparidade entre a condição social dos personagens, evidenciada nas suas vestimentas: um homem branco bem vestido e com calçados versus uma mulher negra com o torso nu e descalça.

Os personagens, sentados em um banco, trocam olhares íntimos. Ele tem o olhar fixo na mulher, cujo rosto nós não vemos. No fundo, uma paisagem natural é responsável por enquadrar a cena e torná-la mais romântica. Porém, dois detalhes nos levam a suspeitar da imagem: o espaço e o tempo representados.

A cena ocorre em um exterior, do lado de fora de uma construção humilde, e durante o pôr-do-sol, o que nos leva a suspeitar que o “romance” sucede às escondidas. Tudo parece indicar que a personagem em questão é uma escrava.

Pouco a pouco, a imagem nos revela as suas intenções. O homem ocupa o centro da composição. A mulher, que está de costas para o espectador, não tem o seu rosto representado; nem qualquer característica individual que lhe atribua uma identidade. Enquanto ela leva as mãos ao rosto do personagem masculino, em um gesto de admiração reforçado pelo título Pequeno senhor que eu amo, ele repousa a mão direita na perna da mulher, quem tem a barra da saia levemente levantada, reforçando a sua condição de objeto sexual.

Finalmente, identificamos na imagem a constituição de um mito: o da relação amorosa e consentida ente amo e escrava. Em seu livro Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis aponta como essas ficções se instalam no imaginário social, consolidando mitos como o da “miscigenação”. Referindo-se à representação na literatura a autora afirma: Apesar dos testemunhos de escravas e escravos sobre a alta incidência de estupros e coerção sexual, o tema tem sido mais do que minimizado na literatura tradicional sobre a escravidão. Às vezes, parte-se até mesmo do princípio de que as escravas aceitavam e encorajavam a atenção sexual dos homens brancos. O que acontecia, portanto, não era exploração sexual, mas “miscigenação”.

Esses relatos, literários ou pictóricos, reforçam o imaginário construído sobre a “promiscuidade” das mulheres negras, acusadas de provocar e incitar homens brancos à relação sexual.

Na pintura, o corpo semi-nu da mulher é um corpo genérico, sem identidade. Um corpo sem sinais de violência, e aparentemente dócil. Um corpo culpado. Um corpo que contradiz o fato de que, como indica Angela Davis, dos numerosos registros sobre a repressão violenta que os feitores infligiam às mulheres, deve-se inferir que aquela que aceitava passivamente sua sina de escrava era a exceção, não a regra.

Por trás de uma pintura que, a princípio, aparenta ser romântica e inócua, revela-se uma imagem violenta que busca validar o mito da relação consentida entre senhores e escravas e que reforça a sexualização da mulher negra. Se desviarmos o olhar crítico, ela pode nos enganar e nos levar a esquecer que muitas imagens produzidas nesse período suavizam e naturalizam a violência cotidiana.

Que impacto essas ficções tem sobre a nossa contemporaneidade? Como nos relacionamos com essas imagens hoje? Como desconstruir narrativas e imaginários constituídos e reafirmados durante séculos de história da arte e que atravessaram oceanos?

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

 

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