Andressa Rocha Crítica quinzenal

O tempo da arte

Observou-se recentemente a emergência de debates acerca da manutenção ou remoção de monumentos públicos que exaltam figuras de colonizadores, responsáveis pelo assujeitamento ou extermínio de indígenas e negros. Trata-se, portanto, de uma discussão que se insere justamente no que Paul Ricoeur conceitua como mémoire manipulée: tais monumentos evidenciam o desejo de valorização dos traços constitutivos de um grupo específico privilegiado e que detinha o poder. Desse modo, a seletividade na construção da narrativa legitimada que apresenta bandeirantes como heróis, por exemplo, atende a fins institucionais por meio da formação de uma memória coletiva que reforça, naturaliza e perpetua o gesto colonial.

Não obstante, o que fazer com obras que constituem um importante período da história da arte brasileira, mas que operam em um regime de visualidade estruturado pelo racismo? Tal questão, longe de ter uma solução fácil, pode ser uma chave de leitura possível sobre o trabalho Túmulo Antropofágico (2019), de Yhuri Cruz. Em sua reflexão sobre as contradições do modernismo e, sobretudo, sobre a antropofagia enquanto projeto estético desenvolvido nas obras canônicas de Tarsila do Amaral, Yhuri resgata a figura dA Negra.

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Yhuri Cruz. Túmulo Antropofágico, 2019.

 

A Negra (1923), apontada por Tarsila como uma obra que já levantava temas da antropofagia apesar de historicamente não fazer parte desse escopo, compõe o acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) desde 1963 e apresenta uma mulher negra sentada com semblante melancólico, o seio esquerdo pendente sobre o braço. A cabeça é ovóide e pequena, enquanto seus pés são agigantados; seus lábios parecem ultrapassar o limite do rosto e as pernas cruzadas são grossas.

Há também uma folha de bananeira na diagonal, além de faixas paralelas em branco, verde, azul e marrom. A pintura sugere que A Negra, essa que nem nome possui, situa-se no limiar entre Coisa e Ser. A imagem no mínimo problemática revela tanto a estrutura de poder na dinâmica social de um país que queria se colocar enquanto moderno quanto o desejo de inserção de Tarsila, vivendo no auge da negrofilia francesa.

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Tarsila do Amaral. A Negra, 1923.

Conforme a pesquisadora e performer Musa Michelle Mattiuzzi aponta, trata-se de “um olhar e uma prática construídos a partir do uso de signos que engendram a necropolítica como possibilidade de inclusão e de representatividade, em um jogo perverso da linguagem branca de captura e visibilidade”. A Negra não utiliza vestimentas, não possui qualquer dado que a vincule a uma humanidade: há apenas a figura que retoma a memória afetiva da artista do período da escravidão.

Túmulo Antropofágico, nesse sentido, promove uma inversão a partir de dois atos: 1- ao remover a folha de bananeira que compunha a imagem, o artista retira a personagem central de qualquer leitura que a aproxime do status de Coisa, produzindo uma fratura na perversa relação entre a pintura de Tarsila e o gênero da natureza-morta; 2- ratifica a sua humanidade colocando-a em uma lápide de granito, ao mesmo tempo em que afirma o sepultamento de produções artísticas coloniais.

 

Referências Bibliográficas

 

MATTIUZZI, Musa Michelle. Histórias Afro-Atlânticas: Algumas Questões, p.607. In: PEDROSA, Adriano; CARNEIRO, Amanda; MESQUITA, André (org.).  Histórias afro-atlânticas: [vol.2] antologia. São Paulo: Museu de Arte de São Paulo, 2018.

RICOEUR, PAUL. A memória, a história, o esquecimento, p.94. São Paulo: Editora da UNICAMP, 2008.

 

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Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

1 comentário

  1. Olá Andressa, achei interessante o ponto levantado. Mas, acho que precisou desenvolver um pouco mais sobre sua ideia do que fazer com esses monumentos retirados da circulação pública… Digo isto, porque gostaria de complementar, expondo que é totalmente plausível este tipo de ação e que a partir da remoção por atos da sociedade, eles poderiam ser incoporados dentro de instituições museológicas, as quais permitiram fazer uma nova leitura sobre este tipo de movimento da sociedade, onde “minoria” tem voz e transforma sua própria história com uma narrativa de construção identitária dessa minória oprimida durante séculos.

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