Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

4 perfis do instagram para navegar na curadoria digital

As experiências digitais, como os museus on-line e a curadoria digital, não são filhas da quarentena. Porém, com o isolamento social massivo a temática ganhou um novo foco, ocupando o centro das discussões entre agentes culturais e passando a ser considerada, inclusive, por aqueles que a rejeitavam.

Hoje, muito se fala sobre a curadoria em redes sociais. O termo não se limita à prática exercida pelos denominados “curadores digitais”, aqueles que atuam digitalmente curando obras de arte post-internet, mas também é utilizado para designar a nossa prática contemporânea nas redes sociais. Nela os usuários cuidam, selecionam, organizam, apresentam e distribuem imagens, pessoais ou não, construindo um espaço pessoal e digital de exposição (no duplo sentido da palavra). Em muitos casos, trata-se de curar a própria imagem e construir um discurso, um significado. Uma leitura possível sobre as nossas vidas.

O termo “curadoria digital” pode ser tão amplio e problemático (no bom sentido da palavra) quanto a palavra “curadoria”. O objetivo de hoje não é tentar encontrar uma definição definitiva, muito menos fechada, sobre a curadoria digital. Tampouco analisar o comportamento nas redes sociais. O objetivo, aqui e agora, é apresentar alguns perfis que se enquadram (ou se aproximam a) nessa prática e utilizam o Instagram como meio expositivo.

Dentro da nossa seleção, há propostas que nasceram antes e durante a quarentena. Algumas se apresentam como museus, outras como plataformas de curadoria digital. É valido ressaltar que, a princípio, nenhum desses perfis funciona como ramificação de uma instituição física; suas existências são netamente digitais.

@exhibit_onscroll

“Para ver a exposição, gire o seu telefone em 90°. Deixe o seu dedo ser o seu guia.”

exhibit_onscroll foi pensada por Kert Viiart e Kristina Õllek como uma exposição digital site-specific. A exposição foi montada em quatro partes durante fevereiro de 2017. Projetada para ser exibida no formato atual do Instagram, o perfil anuncia de entrada: a exposição permanecerá aberta enquanto as três colunas verticais do Instagram, que criam uma espécie de mosaico, existirem.

O usuário visualiza a exposição enquanto desliza o seu dedo pela tela do celular, gesto corporal enraizado na sociedade contemporânea já que o repetimos (quase inconscientemente) cada vez que navegamos nas redes sociais. Porém, ao instalar as imagens de forma horizontal e solicitar ao usuário que gire o seu telefone em 90°, exhibit_onscroll subverte o formato vertical de visualização e navegação do Instagram, alterando a relação do usuário com a plataforma e com o objeto eletrônico.

Ao interferir na lógica de navegação da rede social, o simples gesto de girar o telefone é capaz de produzir uma dupla consciência no usuário: a consciência sobre a plataforma e o seu modo único de visualidade, e a consciência sobre o objeto (celular) e a sua relação com o nosso corpo.

@huminmuseums

Em 2017, Mora Caraballo e Agostina Lombardo, estudantes de museologia naquele então, começaram a coletar relatos sobre experiências de visitantes e trabalhadores de museus. O resultado foi a criação de Humans in Museums, museu virtual que coleciona e exibe as experiências humanas dentro de museus, centro culturais e espaços expositivos.

O museu digital compartilha retratos, entrevistas e ensaios com o intuito não só de exibir e conservar essas experiências, mas também de repensar o funcionamento e a metodologia das instituições.

A proposta digital, que coloca o ser humano no foco da experiência museística, posiciona o visitante como responsável pela existência e permanência das instituições e visibiliza os seus trabalhadores como transmissores de conhecimento a serviço das comunidades.

O museu também conta com uma faceta ativista: Humans in Museums utiliza as redes para visibilizar situações de precarização no âmbito de trabalho dos museus, além de alimentar discussões sobre os direitos dos trabalhadores e dos visitantes de museus.

A atual impossibilidade de visita aos museus físicos não significa a inatividade de Humans. Frente à impossibilidade de realizar entrevistas e retratos presenciais nos museus físicos, o museu digital se encontra re-visitando experiências passadas e discutindo sobre o futuro (ainda) incerto dos museus através de estratégias como, por exemplo, entrevistas aos profissionais de outros museus.

Julho, 18, Foto 1
Divulgação @huminmuseums. Ilustração de Tere Gomez Poggio.

@__etcetc

Criada por Carollina Lauriano e Raphael Escobar, etcetc é uma iniciativa que nasce no contexto do isolamento social.

Partindo da problemática de “como vivenciar a arte em tempos de isolamento social” e buscando criar um campo de diálogo que faça frente à situação atual, na qual o circuito artístico encontra-se de portas fechadas, etcetc propõe minimizar as distâncias e, ao mesmo tempo, ampliar o alcance desses diálogos.

Inspirado pelo Manual do Artista Etc de Ricardo Basbaum, o projeto convida diferentes artistas e trabalhadores da arte e da cultura a criar curadorias digitais por um período de 24 horas através do usuário @__etcetc. Cada curador é responsável por apresentar uma seleção de obras e artistas, segundo seus critérios.

A iniciativa acaba subvertendo a lógica individualista das redes sociais: ao invés do uso tradicional, onde cada usuário é responsável por criar o seu próprio conteúdo e apresentar a sua visão (ou curadoria), etcetc surge como um espaço para a criação e o pensamento coletivo ao propor uma plataforma para a curadoria digital compartilhada. O compartilhamento do espaço digital termina emergindo como uma alternativa ao distanciamento físico.

Segundo os criadores, o objetivo é ampliar a rede de relacionamento entre os agentes culturais e gerar um circuito mais colaborativo. Intencionalmente ou não, a prática termina gerando uma lógica de produção, circulação e divulgação que extrapola as instituições oficiais, incorporando também novas audiências.

@museudoisolamento

No contexto da atual pandemia, Luiza Andas criou o 1º museu do isolamento brasileiro. O museu on-line surgiu com o objetivo de abrigar e difundir trabalhos e produções artísticas produzidas por artistas brasileiros durante o isolamento social.

O museu é aberto à recepção de obras e, diante do grande número de trabalhos recebidos por semana, assume um trabalho de seleção e curadoria do conteúdo. Se bem não há uma temática pré-definida, muitas das obras divulgadas apresentam reflexões sobre o contexto atual.

É importante ressaltar que a criação de um museu do isolamento não significa a romantização da quarentena. Museus são espaços que nos ajudam a entender e a reflexionar sobre a nossa existência e a condição da mesma. Assim como nos identificamos com os memes que circulam sobre o isolamento social, também podemos identificar-nos com os sentimentos transmitidos por essas obras.

O intuito do novo espaço não é coagir os artistas que se encontram em isolamento à criação apesar de tudo, mas sim proporcionar um espaço para aqueles que se encontram criando e desejem ter o seu trabalho divulgado.

Por fim, a plataforma termina funcionando como um espaço para compartilhar sentimentos e identificar-nos com o outro, aquele socialmente distante.

Julho, 18, Foto 2
Arte criada por @surucuina publicada no @museudoisolamento em 18/06/2020

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

 

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