Crítica quinzenal Daniela Avellar

ARMAS SONORAS E OUTRAS PISTAS

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Black Nationalist Sonic Weaponry[1] é o novo lançamento de DeForrest Brown Jr. (sob o nome de Speaker Music) em consonância com as agitações em torno do Black Lives Matter. Amerikkka’s Bay abre o álbum trazendo a voz de Maia Sanna, escritora de dezoito anos, entoando uma poesia falada sobre os recorrentes assassinatos de pessoas negras por agentes da polícia. Com faixas intituladas como Techno is a Liberation Technology, Black Secret Technology is a Traumatically Manufactured and Exported Good Necessitated by 300 Years of Unaccounted for White Supremacist Savagery in the Founding of the United States e American Marxists Have Tended to Fall into the Trap of Thinking of the Negroes as Negroes, i.e. in Race Terms, When in Fact the Negroes Have Been and are Today the Most Oppressed and Submerged Sections of the Workers…, o disco é uma espécie de arqueologia sonora interessada em camadas subjacentes (ou não tão subjacentes assim) da música, pensando atributos como relações de poder e de trabalho, revolta, migração, racialidade.

DeForrest é envolvido com o projeto Make Techno Black Again, que pretende combater o exercício contínuo de apropriação cultural. Hoje a música techno é associada muitas vezes a uma experiência pasteurizada que pouco recupera suas origens em cidades como Detroit (lugar cuja importante exportação musical também inclui a Motown) e a experiência da classe trabalhadora afro-americana. Ainda esse ano o músico e teórico lançará Assembling a Black Counter Culture, que conta a história do techno e música eletrônica adjacente com foco na experiência negra e sistemas de trabalho industriais. O livro explora o desenvolvimento de outra cultura que não uma forma de arte americana única, resgatando uma música eletrônica a partir de uma perspectiva teórica negra.

Em Africa in Stereo a poeta Tsitsi Ella Jaji pensa as condições de um “stereomodernismo” afro-centrado, discutindo a questão da utilização de meios, suportes e uma tecnologia que não foi pensada para o uso e consumo de pessoas negras. O conceito de “stereomodernismo” traz uma importante consideração sobre a paisagem tecnológica que a sociedade industrial insere na experiência da perspectiva negra. É sobre abrir a hierarquia de acesso e conhecimento da produção eletrônica. DeForrest Brown Jr. se utiliza deste conceito na elaboração de Black Nationalist Sonic Weaponry, que soa como uma máquina rítmica entoando repetições incomuns.

Um pdf com diversos textos e imagens acompanha o lançamento digital, tão imperdível quanto o álbum. Nele são comentando nomes como Juan Atkins, Derrick May e Underground Resistance, importantes referências da música eletrônica para pensar e principalmente ouvir o que DeForrest nomeia como um trauma geracional inscrito em uma predição de futuro discriminatória. O artista relembra em seu texto as especificidades vividas pela população negra em relação às consequências da pandemia do COVID-19, em termos de precarização, afastando o tema de uma possível utopia e pasteurização brancas que podem tomar o momento como propulsor de mudanças sem levar em conta outros marcadores. Também discute o modo como empresas, citando o exemplo da Amazon, estão reproduzindo e atualizando formas de relações de trabalho que estiveram presentes no passado. A Ford Motors é um caso específico em relação à cidade de Detroit, e essa história se relaciona com a paisagem sonora que interessa DeForrest, uma paisagem envolvida em suas pesquisas e sonoridade.

O material digital é finalizado com um trecho onde lê-se: “o sentido de ‘soul’ [alma] para nós se estende para além da classificação do gênero musical e expressa a situação de ser categoricamente inumano aos olhos dos órgãos governamentais americanos e pessoas. O techno e as qualidades românticas do hi-tech soul vem de uma longa história de resistência e adaptação de um futuro que não foi destinado a nós, falando com dinâmicas sistêmicas e com sentimentos de pessoas negras trabalhando para um futuro que não está em dívida em relação à utopia branca americana”. O techno presente em Black Nationalist Sonic Weaponry expande em termos de forma o que se identifica usualmente enquanto tal. Combinando poesia no estilo spoken-word, ruído e bateria eletrônica o álbum não é a sonoridade normalmente reproduzida no ambiente “tradicional” da pista de dança, mas justamente opera na construção fundamental de necessariamente outras pistas.

[1] https://speakermusic.bandcamp.com/album/black-nationalist-sonic-weaponry

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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