Crítica quinzenal Pietro De Biase

A ALVORADA ADORMECIDA

A origem etimológica da palavra porta não é pacífica. Poderia se relacionar aos vocábulos latinos portare (transportar) e portus (porto), a partir do radical per (através). Como poderia ter suas origens no vernáculo grego, a partir da palavra poros (passagem). A aparente incerteza quanto à correta etimologia da palavra nos serve como chave de leitura para a nova obra de Thiago Rocha Pitta, A funda morada (2019). Nas palavras do artista, é o seu “primeiro trabalho desde a ascensão da pandemia. A obra retrata um portal atravessado por um lago e seus habitantes”.

Sob a superfície jade do lago, carpas do tipo koi nadam sossegadas. Na cultura oriental, essa espécie de peixe é associada à perseverança, suscitando um grau de evolução do espírito. A vida dos peixes parece ameaçada pelo caldo esverdeado no qual se transformou o lago, que parece se relacionar à predominância de  cianobactérias, estas já presentes em outras pesquisas realizadas por Pitta. As florações das cianobactérias em corpos hídricos normalmente são tóxicas, se devendo geralmente ao acúmulo de matéria orgânica, sobretudo oriunda de esgotamento sanitário. Estaria o cardume de carpas sentenciado ao sufocamento bacteriano?

As cianobactérias não são as únicas que parecem florescer. Boiando, uma flor-de-lótus? Reverenciadas também como a flor de Buda. Simbolizam a efígie da harmonia cósmica alcançada por Sidarta Gautama. Por mais lodosa que esteja a água, a lotus buscará seu florescimento. E as carpas, sua sobrevivência diante de uma paisagem cada vez mais hostil. A primeira vista, a paisagem apresentada por Pitta parece saudável, mas um segundo olhar irá descobrir que aquele ecossistema encontra-se por um triz.

 

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Thiago Rocha Pitta, A funda morada, 2020

O título do trabalho também atrai ambivalência. A funda morada se relaciona às desconhecidas profundezas daquele sistema aquático, revelado pelo portal escancarado. Uma passagem ao universo natural, vilipendiado e acossado pela azáfama da produção. Ou por bem, pela fonética, o título se assemelha a uma declaração de vontade. Quase uma palavra de ordem. O desejo pela submersão da atual morada do Homem ativa uma metáfora do exaurimento de um modelo civilizatório. O Homem cadente, em tensão permanente com a natureza que o atravessa – “um herdeiro decaído das utopias nas quais floresceu o século xx”[1].

Sob uma perspectiva dilatada, o portal d’A funda morada negocia com seus passantes. Atravessar uma porta implica em deixar algo para trás, renunciar. A renúncia que foi degredada da morada do Homem do século xxi. Adulado, ele não conhece limites aos seus atos. Explora. Devora. Rói. A pandemia impôs o retorno da renúncia. O que parecia irrefreável, diante de um microorganismo, afundou.

Atento às violências da velocidade, Rocha Pitta edifica uma parábola de ecos neosurrealistas de um momento em que os seres humanos começam a sentir as vulnerabilidades da tal aldeia global, apelidada de grande abstração civilizatória por Ailton Krenak. Vivemos em um estado de inverno perpétuo[2], onde, naufragada no fundo de um lago caudaloso, repousa uma alvorada.

A arte, enquanto, campo para experiência do real opera, portanto, por e para aquelx que sabe criar uma vida ativa à parte da sua, um outro mundo além da sua realidade axiológica. Reaprenderemos a saudar o futuro através da arte – ou não saudaremos futuro algum.

 

[1] RIVERA, Tania. O avesso do imaginário: Arte contemporânea e psicanálise. Editora SESI. São Paulo, 2018. Pag. 250..

[2] AGUALUSA, Jose Eduardo, Troco tudo por um abraço, O Globo, edição de 18.07.2020.

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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