Andressa Rocha Crítica quinzenal

Por uma ontologia sensível

Sinto as paredes do meu oco na presença do outro¹

 

Tal como afirma Pedro Paulo Gómez, “a colonialidade do poder, uma categoria elaborada por Aníbal Quijano (1999), permite mostrar que existe uma continuidade entre o passado colonial e o presente pós-colonial nos processos de representação de sujeitos coloniais”. Ayla Tavares, nesse sentido, assume sua posição enquanto artista e desenvolve sua poética em um processo que subverte a narrativa colonial: a série Sonantes dialoga com a história da arte brasileira – ainda subserviente aos chamados centros hegemônicos – por meio da retomada de uma visualidade vinculada à produção das sociedades primevas.

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Ayla Tavares. Sonantes, 2018-2019. Fotografia de Vicente de Mello.

Sua obra materializa em forma sensível o apontamento de Mauad de que a memória vive em permanente tensão entre a ausência e a presença: presença do presente que se lembra do passado desvanecido, mas também presença do passado que irrompe o presente e atualiza-o. Observa-se, por conseguinte, uma reconquista do tátil: o barro aparece como uma presença indicial de vestígio da mão que é ação, cria e, nesse caso, pensa². É possível afirmar que há um desejo de resistência e de permanência da forma, além de uma tentativa de reflexão acerca de e pela matéria.

Trata-se, desse modo, de uma proposição que busca evidenciar o vazio necessário para sua elaboração. O oco surge aqui como dado que evoca uma relação com o ruído do ambiente no qual Sonantes se insere e com o som que a própria obra apresenta a partir do contato em um acordo tácito entre corpos vivos. Com uma singularidade poética, Ayla evoca o jogo entre Eu/Outro. Talvez seja essa a principal questão suscitada por ela, que convida os sujeitos a explorarem a própria estrutura da linguagem, estabelecendo uma relação com o que está dado e, sobretudo, com aquilo que falta.

 

¹MAIOLINO, Anna Maria. Tu + Eu. In: ZEGHER, Catherine de (ed). Anna Maria Maiolino: Vida Afora / A Life Line, p.260. New York: Drawing Center, 2002.

²FOCILLON, Henri. Elogio da mão. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2012, p.6.

MAUAD, Ana M. História, Iconografia e Memória. In: SIMSON, Olga R. de M. Von (org.). Os Desafios Contemporâneos da História Oral. Campinas: UNICAMP/CMU, 1997.

GÓMEZ, P.P. La paraoja del fin del colonialismo y la permanencia de la colonialidad. Calle 14, v.4, n.4, jan – junho 2010. Disponível em  https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/3231097.pdf.  Acessado em 19 abril, 2019.

 

andressa

 

Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

 

 

 

 

 

 

 

 

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