Crítica quinzenal Daniela Avellar

KLEIN: FROZEN

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Frozen[1], lançado em abril deste ano, é um trabalho recente da artista inglesa e nigeriana Klein. O álbum foi produzido e mixado por ela, quem gravou vocais, guitarra e piano. Se em Lifetime (2019), seu disco anterior, havia uma sonoridade que evocava um estado pessoal e quase confessional (circunscrita pelos limites que isso pode ter e mais no sentido de criação de espaços de intimidade), o novo trabalho de Klein retrabalha as ideias de presença e partilha, somando a elas preocupações com temas como justiça, violência e racialidade. Subsiste em Frozen alguma atmosfera que remonta a uma situação de quarto, de feitura de um diário. Mas o que neste trabalho é pessoal, ressoa político. Uma vida ou subjetividade não estritamente individual e interiorizada, que se revela da forma mais singular possível.

Com colagens em sobreposição feitas de cantos, sons de guitarra, ruído e cacofonia, Frozen conduz o ouvinte a atmosferas que variam entre referências palatáveis, mas rapidamente tomadas, dando lugar a construções reflexivas onde a descoberta faz parte da disponibilidade de escuta. E a revelação na sonoridade de Klein não se dá através de uma construção linear, mas a partir da experimentação por parte de quem ouve, de pequenas passagens, mudanças de ritmo e de intenção, como um fluxo que faz algo ainda seguir em curso de forma contínua.

“when jesus says yes, nobody can say no” é a faixa que abre o álbum, nela ouvimos uma série de batidas que podem ser um esmurro em porta ou um descer escadas – a paisagem construída contraindo-se à esfera doméstica. “U got this” sugere permanência tratando-se de um extenso loop – não haveria temporalidade mais adequada aos tempos atuais, onde ou se está mais em casa, ou minimamente não há perspectivas muito consistentes sobre futuro, restando o tempo alojado num presente repetitivo. Em “reveal itself” algo é quebrado ou desterritorializado. A faixa inaugura uma outra modulação ou momento de Frozen através de uma espécie de revelação, nos moldes que informei anteriormente. A escuta suscitada pelo trabalho de Klein ora preenche o espaço construído, ora se surpreende por sentir-se despojada de seu próprio lugar.

“mark” é talvez a música mais emblemática do disco. De seus onze minutos, dez são constituídos por silêncio. Trata-se de uma faixa-tributo a Mark Duggan, um homem negro assassinado por policiais em agosto de 2011 em Londres, na Inglaterra, durante uma operação de vigilância. O ocorrido gerou uma semana de protestos nesse mesmo ano. Sabemos que em termos de sonoridade não há propriamente algo como o silêncio. Seria o atributo uma possibilidade impossível. Se a célebre peça de John Cage, 4’33’’ (1952), mobiliza o conceito de silêncio criando algum apagamento que acaba por reformular o que entendia-se como música no sentido tradicional, se este trabalho demanda àquele que ouve um preenchimento da situação de concerto onde não é encontrada uma produção intencional de ruído vibratório –  o que seria pretendido na extensão temporal reservada por Klein onde algo maior do que um interlúdio se faz presente?

 Através do vazio na maior parte da faixa “mark” é sim possível ouvir. Nele estamos diante de um paradoxo, por tratar-se de uma ausência que se faz presente. O silêncio pode ser gesto de luto. E diante do assassinato de Mark Duggan, entre o de tantas outras pessoas negras que morrem diariamente nas mãos de agentes da polícia, que luto é possível ser feito? E em que medida isso é efetivo? O aparente vazio evoca conceitualmente o som dos corpos daqueles cujas vozes são sistematicamente silenciadas. Já no final da música, quando menos esperamos, ouve-se um entoar da frase “no justice, no peace” e rapidamente a faixa emenda na próxima, quando o vocal se torna cada vez mais desterritorializado e dilatado. Frozen é um álbum preciso, consonante às urgências deste tempo, algo para ser ouvido com atenção e abertura. O trabalho de Klein convoca uma escuta implicada capaz de criar espaço para o outro, quem se desloca de seu lugar para uma entrada no tempo de matérias rítmicas que soam enquanto projetos de liberdade.

[1] https://klein1997.bandcamp.com/album/frozen

 

 

Daniela Avellar

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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