Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

A câmera como extensão do corpo em Pola Weiss

Pola Weiss (1947-1990) foi uma artista mexicana considerada pioneira no campo da vídeo-arte. Para além, Pola foi também precursora na vídeo-dança e na utilização da televisão como suporte e veículo para a arte.

A câmera portátil, novidade efervescente naquele então, resultou ser um meio mais acessível para muitas mulheres que, logo, explorariam as possibilidades desse suporte. Da mesma forma, operou como um lugar desde o qual realizar os seus próprios enunciados. O vídeo funcionaria não só como instrumento individual de emancipação, mas também como ferramenta ativista para coletivos feministas (vide o coletivo mexicano Cine Mujer, 1975-1987, e a exposição Musas Insumisas no Museu Reina Sofia, 2020).

A primeira obra em vídeo de Pola Weiss, Flor Cósmica, data de 1977. “Tudo foi feito, literalmente, com as suas próprias mãos, sem sofisticação tecnológica, na mais absoluta independência e autonomia. Sem modificar seriamente a estrutura institucional do aparelho de TV; mas gerando significados completamente anormais, hiper-estéticos, sem um relato linear, sem um conto burguês. Imagens mais próximas da escultura cinética e da música eletrônica do que da TV comercial ou da pintura.” [i]

Pola enxergava a televisão como um suporte possível para a arte, e passou a identificar-se como “teleasta”. Ficou conhecida como uma criadora solitária, já que produziu e geriu os seus projetos de forma autônoma. Mas, preferiria chamar-la de “independente”.

A artista irá realizar práticas experimentais onde o vídeo será o meio e a televisão o suporte. Em suas experimentações, fusionará a dança e o vídeo. Essa incorporação da dança no audiovisual não será através da captura do outro que dança, mas sim através de seus próprios movimentos e execuções coreográficas. 

Moverá seu corpo livremente. Ao integrar a câmera ao corpo, permitirá que a lente incorpore as suas coreografias, criando um registro coreografado do mundo. Dançando, buscará capturar “realidades corporais heterogêneas, desmarcadas de modelos canônicos”. [ii]

Ao dançar enquanto filma, a câmera deixa de operar apenas como uma extensão da vista, e passa a ser uma extensão do corpo todo. Um corpo em pleno exercício do movimento.

Sua corporalidade não responde a uma idéia tradicional de “dançarina”. Não há virtuosismo, muito menos pretende tê-lo. A dança emerge pelo puro prazer de dançar, de mover-se livremente para que através desse “exercício experimental da liberdade” [iii] culminem novas visualidades.

Em 1979, Pola apresenta em Veneza Videodanza Viva Videodanza. Com a câmera portátil apoiada no ombro, dança enquanto captura a sua própria imagem e a dos espectadores refletida em espelhos instalados na sala. Simultaneamente, projeta a ação em tempo real através de um monitor. Ao fusionar dança, vídeo e auto-retrato, exerce vários desdobramentos de si em seu projeto.

Olhando para a sua produção desde uma perspectiva de gênero, podemos falar de um corpo que se move livremente e que se auto-representa. Se estabelece também uma nova relação entre o corpo feminino e a cidade, desdobrada através da performance em uma experiência corporal subjetiva.

 “Minha maneira de ver e ouvir mudou. Agora a minha linguagem é diferente. Eu vi a vida de outra forma.”

Pola tirou a própria vida em 1990. Trinta anos depois, sobrevive uma produção que ainda precisa ser investigada e uma obra pertinente de se re-visitar.              


[i] http://www.museodemujeres.com/es/biblioteca/21-el-ritual-amoroso-de-la-bruja-electrica-pola-weiss-1947-1990

[ii] Dra. Eugenia Macias (México) em fala recente (2020).

[iii] Parafraseando a Mário Pedrosa.

Imagem de fundo: Retrato Cíclope, 1987

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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