Andressa Rocha Crítica quinzenal

Cartografia do invisível

O revisionismo acerca do colonialismo inerente à construção do Brasil e a análise sobre a violência que ainda permeia as relações de poder na contemporaneidade constituem duas frentes de pesquisa para o desenvolvimento da poética de Jaime Lauriano. Em novus brasilia typus: invasão, etnocídio, democracia racial e apropriação cultural (2016), o artista utiliza a cartografia – um dispositivo colonial – ao realizar uma releitura do mapa Novus Brasiliæ Typus. Elaborado pelo cartógrafo holandês Willem Blaeu, ele compõe a coleção Atlantis Appendix, sive pars Altera, continents Tab: Geographicas diversarum Orbis regionum, nunc primum editas, publicada pela primeira vez em 1630 e constituída por 60 mapas. Novus Brasiliæ Typus (Figura 1)apresenta uma interpretação do Brasil com viés bastante colonial: o título do mapa, posicionado no canto inferior esquerdo, é circundado pela alegoria do país, formada por um homem indígena nu, que utiliza um cordão com face pendente e segura um arco e flecha e uma mulher indígena, também nua e que carrega um cesto em cima da cabeça e segura uma colher.

Figura 1. Willem Blaeu. Novus Brasiliæ Typus, 1630.

     É importante salientar que, enquanto o homem possui um semblante combativo, com a cabeça erguida, a mulher aparenta cansaço ou melancolia com a cabeça baixa. Acima das figuras, há um animal aquático e uma caravela. Na parte superior ainda à esquerda, observam-se as detalhadas divisões das capitanias hereditárias, empreendimento colonial implementado pela Coroa portuguesa que concedeu terras anteriormente habitadas pelas sociedades ameríndias: além das representações de árvores, montanhas e eventuais animais, há também a presença da Igreja, evidenciando a consolidação das capitanias enquanto projeto civilizatório colonial. A parte central do mapa destaca práticas do modo de vida indígena: uma mulher, perto de dois animais, repousa tranquilamente na rede, a qual foi amarrada entre duas palmeiras. Assim, configura-se imageticamente a ideia de preguiça atrelada até hoje à sociedade brasileira, também apontada por Oswald no Manifesto Antropófago (“Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil”). Ao lado, próximo a uma oca, ocorre uma cena de um pretenso ritual antropofágico protagonizado por três homens: destacam-se, nesse contexto, partes de corpos já desmembrados como braços, cabeças e pernas.

Existe, portanto, uma associação entre o repouso do corpo dos nativos do Brasil, alimentação e antropofagia. É importante constatar como o imaginário da relação entre América e canibalismo disseminou-se também através das ilustrações contidas nos mapas, criando uma associação entre a veracidade geográfica e a cultural, que se legitimam mutuamente.[1]

     Não obstante, nenhum dos três indígenas está no processo de devoração de aspectos admiráveis do Outro, processo que caracteriza a antropofagia. Há, na representação construída por Blaeu, apenas o desejo de reforçar a narrativa que afirma as sociedades originárias enquanto primitivas, selvagens e violentas. Conforme Mbembe aponta a partir da leitura de Origens do totalitarismo de Hannah Arendt (2012, p.277), o direito de matar existe pois “os selvagens são, por assim dizer, seres humanos ‘naturais’, que carecem do caráter específico humano, da realidade especificamente humana, de tal forma que, ‘quando os europeus os massacravam, de certa forma não tinham consciência de cometerem um crime’”[2] A colonização, dessa maneira, encontrou nos mapas mais um aparato de poder que legitimava a compreensão de que mais do que benéfica, ela era necessária, pois possibilitaria civilizar tais povos.

     A partir da cartografia desenvolvida por Blaeu, Lauriano apresenta um desenho elaborado com pemba branca sobre o algodão preto e que apresenta algumas alterações significativas: o título surge na mesma posição, entretanto não há mais duas pessoas indígenas em seu entorno (Figura 2). Acima do título, onde anteriormente situavam-se caravelas, Jaime escreve “apropriação cultural” e no espaço reservado à escala, vê-se “invasão”. O mapa da Baía de Todos os Santos, por sua vez, é substituído por “democracia racial” e contrapondo-se à presença humana estereotipada de Novus Brasiliæ Typus, sobretudo na parte central, o artista insere a palavra “etnocídio”.

A denúncia da dimensão classificatória, por meio da figuração de mapas, apresenta-se, então de modo mais explícito, na série Invasão, Etnocídio, Democracia Racial e Apropriação Cultural, de 2016, de Jaime Lauriano. A rede figura, entre outros elementos, junto ao registro do território que, não por acaso, Lauriano realiza sobre algodão. A inscrição das redes no trabalho, associada ao título, rememora Gilberto Freyre (1900 -1987) e sua tese sobre a miscigenação no Brasil, em que o artefato mobilizou visualmente noções conectadas à preguiça ou à sexualidade nas relações entre senhor e escravizado.

Figura 2. Jaime Lauriano. novus brasilia typus: invasão, etnocídio, democracia racial e apropriação cultural, 2016.

     Jaime propõe uma alternativa à narrativa vigente, caracterizada por mitos como a democracia racial, presente no hino à República escrito em 1890 pelo poeta Medeiros de Albuquerque. Trata-se de um projeto de nação baseado no apagamento à memória, tendo em vista que o hino afirma, dois anos após a abolição da escravatura, que  “Nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre país!”. Tal como aponta Andreas Huyssen (2014, p.158), “o esquecimento precisa ser situado num campo de termos como silêncio, desarticulação, evasão, apagamento, desgaste, repressão – todos os quais revelam um espectro de estratégias tão complexo quanto o da própria memória”. Outrossim, em detrimento à noção de descobrimento, Lauriano defende o termo invasão, inserindo-se no campo discursivo de práxis anticoloniais e, consequentemente, rejeitando a ordem do discurso eurocêntrica.


Referências Bibliográficas

¹FONSECA, Raphael. Olhar para o outro, Olhar para si, p.124. In: FONSECA, Raphael (org.). Vaivém. São Paulo: Conceito, 2019.

²MBEMBE, Achille. Necropolítica, p.36. São Paulo: n -1 edições, 2018, 2ª ed.

³CARNEIRO, Amanda. “Quem vem de lá?”: Redes de circulação iconográfica, p.200. In: FONSECA, Raphael (org.). Vaivém. São Paulo: Conceito, 2019.

HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais e políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto, 1ªed, 2014.


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Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.


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