Crítica quinzenal Daniela Avellar

MEDITAÇÃO ESTENDIDA

Em 1967 a artista Alison Knowles, associada ao movimento Fluxus, começou a comer todos os dias o mesmo o almoço – um sanduíche de atum em torrada integral com manteiga e um copo de buttermilk ou a sopa do dia. Isso no mesmo horário e mesmo local, o Riss Foods Diner em Chelsea. Philip Corner, seu colega e também artista, quem tinha um ateliê próximo ao restaurante, passou a estar junto na ocasião e denotou que Knowles solicitava todos os dias os mesmos itens do cardápio. Tomando nota desta peculiaridade, o olhar de Corner rendeu um livro publicado. A artista também lançou um livro sobre a experiência, ou hábito, intitulado The Journal of Identical Lunch, contendo algumas participações de outros amigos que passaram a comumente acompanhá-la, construindo almoços e refeições partilhadas. Alison Knowles segue com este trabalho até hoje, ainda que sob outras e novas formas.

Por ser um encadeamento performativo e repetitivo, o almoço idêntico funciona como diário e partitura. Ao mesmo tempo a peça possui algum aspecto reflexivo e autoconsciente que a faz reverberar enquanto uma forma estendida de meditação. As práticas artísticas identificadas com o movimento Fluxus comportam como uma de suas marcas certa tentativa de olhar para o que é feito de forma menos subjetiva e mais ritualística. Ritualizar o concerto musical, ritualizar os hábitos, ritualizar os acontecimentos e o cotidiano. E há a criação de uma certa topologia que permite ao artista perceber-se enquanto sujeito nesses rituais, estando em um espaço marcadamente relacional, para além da característica costumeira do hábito e da repetição sucessiva. Como se nesta configuração o sujeito aparecesse menos como algo que precede os acontecimentos (e os objetos, que neste momento assumem alguma perenidade dando lugar à ações enquanto procedimentos) e mais enquanto um efeito do meio; o sujeito-artista se constituindo nas bordas deste outro lugar.   

O pesquisador David Doris escreve em um de seus textos, Zen Vaudeville, sobre como falar sobre Fluxus é fazer uma tentativa sempre provisória. E por isso devemos ter prudência em articular totalmente as proposições do movimento e especialmente as suas partituras (as quais muitos pesquisadores atribuem relações com o koan, ferramenta quase pedagógica do zen, onde breves inscrições narrativas indicam situações pouco conclusivas e bastante reflexivas) à prática zen budista. Se um ready-made não demanda nenhuma habilidade ou saber específico e volta-se para objetos comuns, uma ação nos moldes ready-made trata-se de algo que pode ser executado por qualquer pessoa de modo simples. Para além disso, as apresentações ligadas ao Fluxus consistiam em acontecimentos simples que envolvem um grau de emoção baixo. Arthur Danto acredita que essas características denotam alguns atravessamentos entre os trabalhos do Fluxus e o zen budismo.

Tanto as práticas zen como os trabalhos do Fluxus utilizam a linguagem como confrontação em relação as inadequações da própria linguagem com o mundo. Ambos colaboram em uma reconfiguração do sujeito como componente indissociável dentro de um campo em transformação. Em vez de um sujeito individual agindo sobre o mundo, há um senso de determinação recíproca e interação, algo em proximidade com o espaço relacional ou comunicacional citado anteriormente. O Fluxus compreende a obra como algo deslocado da identidade e subjetividade do artista e tinha essa premissa como uma preocupação latente. Esse exercício questionador abre espaço para que os trabalhos em questão reverberem em uma plenitude de possíveis significados e interpretações.

O seminário sobre zen budismo do Dr. Suzuki foi um marco cultural no final dos anos 50. Seus ensinamentos denotavam, entre outras coisas, que não seria necessário que uma pessoa se isole da vida para praticar uma atividade esotérica. O decurso da vida diária ofereceria todas as possibilidades exigidas por aqueles que procuram uma vida espiritual. Mais uma vez, a questão dos hábitos cotidianos e daquilo que evoca o ultra comum, como por exemplo o ato de almoçar. O mundo de objetos cotidianos em si seria o estado de nirvana almejado pelo budismo. Yoko Ono, artista ligada ao Fluxus e quem também trabalhava com o formato partitura, foi instruída nas práticas do zen no Japão e era bastante envolvida com esses ensinamentos

O zen foi um lugar onde muitos artistas encontraram paradigmas para a desejada desestabilização da relação do indivíduo com os objetos e com o mundo. Essa reavaliação de relações e consequentemente da obra de arte cobra uma forma de apresentar e representar que não envolva a subordinação do objeto a um fechamento absoluto. É possível dizer, a partir do texto de David Doris, que a identidade implicada nos processos do Fluxus é como um grande canal de circulação e transição. E é aí que o autor atribui importantes atravessamentos entre a filosofia oriental e os mecanismos Fluxus, falando da questão da temporalidade, citando um eterno retorno como desejo de potencialidade. A viagem como fluxo de passagem, envolvendo algum esquecimento em sua operação, uma espécie de suspensão.

O almoço idêntico, incessante e repetitivo de Alison Knowles suscita momentos instantâneos que ressoam múltiplos, evocando um nomadismo de intensidades. Similar noção encontramos no zen, um entendimento do esquecimento em relação à memória como modo de manter uma consciência imediata do inconstante presente, um além-representação. Em um momento onde pouca perspectiva parece emanar de qualquer ideia de futuro, por conta da pandemia e do que aglutina-se a ela, me parece que devemos aprender, mais do que habitar este presente que aparece como um acontecimento, saber povoá-lo a partir da criação de encadeamentos ritualísticos de ressignificação cuja origem e fim permanecem não fixados e não fixáveis.


Daniela Avellar

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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