Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

Teatro, quarentena e ex-amores: ficções por whatsapp.

Não é novidade que o setor cultural foi fortemente afetado pela pandemia. Nesse contexto, o teatro é uma das áreas mais impactadas. Enquanto alguns museus lentamente retomam as suas atividades, os teatros continuam de portas fechadas e, em muitos casos, ainda sem perspectivas.

Quando praticamente todas as nossas atividades se viram forçadas a adaptar-se ao formato digital, surgiu a problemática sobre como transpassar o teatro ao formato virtual.

Acontece que o teatro é uma arte de convívio, que ocorre a partir do vínculo atores-público. É também uma forma de encontro com outros.  Ela se apóia justamente naquilo que a quarentena anulou (entre outras coisas): a possibilidade do encontro e do desenvolvimento de vínculos presenciais. Talvez por isso o cinema não seja suficiente. Talvez por isso continuamos indo ao teatro:  para encontrar-nos nesse convívio, para sentir a empatia do vínculo, para ter um encontro. Ir ao teatro, de alguma forma, é colocar em prática o ato de estar presente.

Como então fazer teatro sem convívio, sem encontro, sem presença?

Sem esses fatores não há teatro. O que podemos fazer é buscar estratégias para que a virtualidade represente e reponha (ainda que de forma precária) esse encontro que o teatro gera. Pelo menos uma nostalgia.

Alguns teatros, espaços culturais ou companhias, como o Shakespeare’s Globe em Londres, o Itaú Cultural no Brasil, ou o Teatro Nacional Cervantes na Argentina, passaram a exibir on-line, e por tempo determinado, filmagens de peças anteriormente encenadas em seus palcos. O acesso livre a esse material, enquanto arquivo, é valioso.

Outros agentes, principalmente do setor independente, adaptaram a sua programação ao formato de streaming ao vivo. Essa espécie de ato teatral realizado para uma câmera com o intuito de ser visualizado por um espectador que se encontra do outro lado de uma tela nos leva novamente à pergunta sobre o teatro.

Jorge Dubatti, crítico e historiador teatral, aponta que o surgimento de novas tecnologias colaborou com o teatro. Porém, elas não constituem a experiência teatral. Na sua filosofia do teatro, o autor utiliza a expressão “convívio” para designar a reunião de corpos presentes. Sem convívio não há teatro. Dubatti reafirma que a presença do corpo é fundamental para a constituição do evento teatral.

Ao comentar sobre o “vídeo-teatro”, que ocupou o centro da discussão teatral devido à pandemia, enfatiza que a questão não reside em decidir o que é melhor ou pior, mas sim em sinalizar as suas diferenças. No “vídeo-teatro” o espectador não encontrará a experiência teatral, mas sim a experiência do vídeo-teatro que, por sua vez, dependerá da linguagem do vídeo. Para o autor, o “vídeo-teatro” estaria promovendo outras constelações categóricas para pensar o seu regime de experiência.

É nessa direção, de pensar experiências outras e as suas necessidades de novas categorias, que quero mencionar Amor de Cuarentena.

 “Amor de Quarentena” é uma experiência virtual a partir de textos do dramaturgo argentino Santiago Loza. A entrada é adquirida no mesmo site onde antes poderíamos conseguir entradas para o teatro presencial. Após adquirir o ticket, o espectador deverá escolher um intérprete, entre cinco atores, que dará voz à sua experiência. Logo, basta o ouvinte-participante entrar no jogo.

Através do WhatsApp nos encontramos com essa voz. Nessa voz, um ex-amor. Um antigo amor que se comunica em tempos de confinamento. Cada dia uma mensagem de áudio. Em cada mensagem um pequeno encontro solitário e a possibilidade de pausar o instante, pelo menos durante esse encontro.

A experiência propõe uma dinâmica lúdica, na qual o receptor das mensagens é colocado em uma subjetividade particular. Enquanto visualiza a mensagem e reproduz o áudio, o receptor é parte de um vínculo. Todos os dias, durante 14 dias, uma mensagem de áudio chegará para colocar o destinatário de volta nesse lugar particular. Através dessa voz e do que ela enuncia, uma relação será reconstruída.

O foco da experiência não está em uma estrutura tradicional de conflito e desenvolvimento. Trata-se mais de um jogo, no qual o receptor das mensagens arma, a partir da sua própria subjetividade amorosa, um vínculo específico com aquela voz. Cada mensagem contém memórias, pedidos, canções e enunciados que podem não nos pertencer, mas que sentimos nossos. Pelo menos por alguns instantes.

A experiência também constrói um outro tempo. Diferente do teatro, da TV, ou da live, não escolhemos o momento em que iremos entrar na convenção. A ficção simplesmente surge em algum momento do dia, na forma de mensagem, interrompendo a lógica cotidiana e ingressando em um espaço íntimo, através do aplicativo de uso pessoal. Mas, é claro que ela também deixará o receptor no lugar da espera. E com isso, gerará expectativas.

“Amor de Quarentena” é sobre a distância, a falta e a nostalgia. Mas, também sobre o desamor e o desencontro. Através desse misterioso encontro construímos um sentimento de empatia, talvez até anseio, pelo estranho e desconhecido.

Por último, mas não menos importante, é preciso destacar que parte do arrecadado pela experiência está sendo doado à La Casa del Teatro e ao Arquivo da Memória Trans Argentina. Também, que a experiência não é vendida como teatro, e sim como “experiência virtual”. Nada mais coerente, afinal trabalha-se com uma estratégia que envolve outros suportes e linguagens. Uma outra saída possível para criar ficções que, assim como o teatro, se confundem com a vida.


Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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