Crítica quinzenal Pietro De Biase

A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

Em 1970, Simone de Beauvoir escreveu que existe uma conspiração do silêncio em redor da velhice.

“Paremos de trapacear- ela diz- o sentido de nossa vida está no futuro que nos espera. Não sabemos quem somos, se ignorarmos quem seremos: aquele velho, aquela velha, reconheçamo-nos neles”.

Desde a máxima beauvoiriana, a velhice permanece na estante dos grandes temas da psique humana. Inconspícua entre as teias e outros tabus sociais. Tradicionalmente, sua representação pela arte ocidental  se amolda na apreensão da idade avançada como decrepitude e incapacidade. Um inverno perpétuo que encerraria a pluralidade das possibilidades existenciais, devendo o velho resignar-se à interiorização e ao silêncio.

Não raro se escuta o termo anti-envelhecimento. Um arsenal de produtos e tratamentos destinados a, se não eternizar a juventude, retardar o declínio da carne. É fundamental pensar sobre a cruzada anti-envelhecimento para se entender o lugar social ocupado pelos velhos.

A sociedade edifica uma série de clichês baseados no fato de que considera uma pessoa idosa um objeto de exame científico. Cabe-se a sua descrição em exterioridade, isto é, o idoso passa de sujeito a objeto de estudo, sendo descrito, e pouco ouvido. Decerto, em muitos casos, por limitações de ordem biológica, os velhos não se mostram aptos a expressar plenamente suas vontades, mas o que se tem notado é que a subjetividade muitas vezes tem sido classificada como um verdadeiro monopólio da juventude, que vai se diluindo ao longo dos anos até a velhice.

A compreensão do envelhecimento, por sorte, não é a mesma entre todos os povos. Em recente artigo no jornal Nexo, Camilo Rocha narra o como a morte de idosos por covid-19 tem abalado diversas comunidades indígenas. Por serem culturas alicerçadas na oralidade, os anciãos servem como autoridades morais, conselheiros espirituais e detentores de conhecimento e memória para os povos indígenas. Suas mortes trazem desorientação para essas populações. 

A oscilação linguística entre a oralidade e a escrita se desdobra em um sem número de relações entre os seres que compõem uma determinada comunidade. As ações mais banais como, por exemplo, ler um livro – que para alguém gestado em cultura oral não enxergará grande valia em se fruir da leitura, enquanto vivência isolada, visto que sua experiência gira em torno da ação coletiva de ouvir histórias. Ler ou escrever representam ações estranhamente solitárias para indígenas. Já ouvir, e contar, histórias se acopla como eixo de sociabilidade desses povos. E justamente aí que os velhos careiam destacada importância. Guardiões de saberes ancestrais e da memória comunitária, os anciãos são verdadeiras bibliotecas vivas.

O neuropsicólogo russo Elkhonon Goldberg pontua que a sabedoria é uma forma de processamento mental muito avançada, que atinge seu auge apenas na velhice – justamente a época em que a capacidade do nosso cérebro começa a diminuir. Esse processo aparentemente contraditório é tema do seu livro O Paradoxo da Sabedoria (2005). A sabedoria assenhorada pelos mais velhos estaria para Goldberg “na capacidade de ‘saber’ a solução de um problema complicado ou inesperado de maneira praticamente instantânea e sem esforço mental”. É também a capacidade de de conseguir antecipar eventos que costumam pegar as pessoas desprevenidas.

Mais recentemente, a conspiração do silêncio ganhou tarja de mortalidade com o recrudescimento da pandemia, em que muito se ouviu –  “mas o vírus só mata idosos”. O falso dilema salomônico entre salvar vidas e proteger empregos foi atravessado pelo desprezo aos mais frágeis. Para citar Walter Benjamin, que o ano de 2020 comemora 80 anos de sua morte: “As coisas nesse meio-tempo caíram de maneira demasiado abrasante sobre o corpo da sociedade humana”[1]. Uma humanidade espatifada.

Partindo de uma aproximação entre corpo e território, a artista Vera Chaves Barcellos idealizou suas Epidermic Scapes (1977/1982). Impressões de partes de sua pele em papel-vegetal no formato de um falso-negativo com tinta de xilogravura, ampliadas e finalizadas em fotografia de alto contraste preto e branco. O resultado gráfico acaba por borrar os referenciais da epiderme, cedendo espaço a uma paisagem do corpo.

Vera Chaves Barcellos, Epidermic Spaces, 1977/1982

E, justamente, nas paisagens do corpo em que se experiencia, de antemão, os processo de envelhecimento. Rugas. Manchas. Pelancas. Varizes. Em Topografia Imaginária (1994 -1997), Vicente de Mello examina muitos desses acidentes geográficos do sítio epidérmico de seus pais, à época, em idade avançada. Uma cartografia sensível que desafia o olhar, reiterando que a experiência estética não se adstringe aos lugar que a doxa lhe designa. No campo visual, o arranjo cênico presente na Topografia de Vicente, se transmuta em arquitetura.

Vicente de Mello, Topografia Imaginária, Homem, 1994
Vicente de Mello, Topografia Imaginária, Mulher, 1997

Etimologicamente, o arquiteto seria o construtor principal de uma obra. Responsável por orientar e alertar sobre os vícios da construção. Um sábio. A conspiração do silêncio se mostra como uma constante entre os vícios éticos da civilização ocidental. A perspectiva dilatada acerca do fenômeno da velhice vem ao auxílio dos que buscam, como Mello, enaltecer os sábios arquitetos e assim, quem sabe, construir uma história coletiva de futuro.

[1] BENJAMIN, Walter, Obras escolhidas II: Rua de mão única, op.cit.,p.54


pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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